
Rahsaan Roland Kirk foi um dos mais poderosos saxofonistas de sempre. Com uma história de vida inimitável, onde se mostra que a força da vontade supera as limitações, conseguiu alimentar uma carreira que, apesar de curta, gerou seguidores entre os jazzeiros tradicionalistas e os da vanguarda. Apesar disso, é um músico que hoje pouca atenção tem.
Vi pela primeira vez este músico num quadro do Catacumbas Jazz Bar – a imagem de um músico de óculos escuros a tocar simultaneamente três instrumentos de sopro sugeria um inquieto espírito livre (para usar uma expressão surgida em comentários recentes deste blog). Esta era uma imagem de marca deste músico: a excentricidade de conseguir tocar três saxofones (ou variantes) ao mesmo tempo. No entanto, a sua qualidade musical vai para além desta curiosidade. Chris Kelsey, ele próprio um notável saxofone da actualidade, escreve no
all music guide:
Arguably the most exciting saxophone soloist in jazz history, Kirk was a post-modernist before that term even existed.(…) Kirk was an immensely creative artist; perhaps no improvising saxophonist has ever possessed a more comprehensive technique — one that covered every aspect of jazz, from Dixieland to free — and perhaps no other jazz musician has ever been more spontaneously inventive. His skills in constructing a solo are of particular note. Kirk had the ability to pace, shape, and elevate his improvisations to an extraordinary degree. During any given Kirk solo, just at the point in the course of his performance when it appeared he could not raise the intensity level any higher, he always seemed able to turn it up yet another notch.
Foi através de um texto do
Jazz e Arredores (mais uma vez, lá está!) que me atirei aos discos dele. Cronologicamente, comecei pelos primeiros quatro discos oficiais (ainda falta muito, bem sei…):
“Introducing Roland Kirk” (1960): Kirk apresenta-se ao mundo, naquele que é o seu real segundo registo (o verdadeiro primeiro teve pouca divulgação e “desapareceu”). Esta rodela mostra as qualidades de Kirk e inclui o clássico “Our Love Is Here to Stay” (Gershwin).
“Kirk's Work (with Jack McDuff)” (1961): Acompanhado do orgão do “brother” Jack McDuff, Kirk sobe um degrau, interpretando temas como “Three For Dizzy” ou “Funk Underneath”.
“We Free Kings” (1961): O tema-título é um dos meus favoritos; o disco também. Recheado de originais, também acolhe uma versão de “Blues for Alice”.
“Domino” (1962): O meu disco preferido, até agora. Kirk cobre um lote grande de clássicos, alternados com originais. “Someone to Watch Over Me”, “I Didn't Know What Time It Was” são highlights.
Rahsaan Roland Kirk (assim chamado depois de um sonho em que um anjo lhe dissera para mudar de nome), nasceu com visão mas ficou cego muito cedo; sofreu em 1975 uma paralisia que o impediu de mexer a parte esquerda do corpo, mas conseguiu continuar a tocar, apenas com a mão direita, até à sua morte em 1977. Apesar das contrariedades, Kirk foi um músico magnífico mas, infelizmente, nunca granjeou grande reconhecimento. É urgente rever a importância da sua obra.