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stereo (2K)
2004/11/30

O Mestre


O Eduardo Chagas é certamente a pessoa que mais sabe de free jazz e música improvisada em Portugal. Comecei por conhecer este senhor ao ler as suas (sempre excelentes) críticas n’a puta da subjectividade [p.f. não se ofendam, o nome do site é mesmo assim]. Algum tempo depois, o Eduardo deve ter descoberto este blog ao acaso e sabiamente achou que eu devia aprender umas coisas… Mui honrosamente fui convidado a integrar o newsgroup Free Portugal, Jazz! – e foi aí que comecei a ouvir alguns nomes estranhos que começam cada vez mais a fazer sentido. Mais tarde, em Setembro, o Eduardo decidiu transferir os seus conhecimentos para um blog, para alegria de todo o mundo português falante, que finalmente teve acesso a uma riquíssima fonte de informação sobre jazz e improvisação sempre renovada e actualizada. Foi assim que surgiu o blog Jazz e Arredores: http://jazzearredores.blogspot.com. A pedido do Eduardo, colaborei no desenvolvimento do seu blog com uma pequena ajuda técnica - na verdade apenas dei uns retoques a nível gráfico, a nível da forma (do jazz); o conteúdo, esse, é da sua inteira e exclusiva responsabilidade (e que responsabilidade!). O Jazz e Arredores é um espaço de visita diária obrigatória a todos os que se pelam pelas artes do jazz livre e demais gente interessada em sons menos domesticados. Em cada post há sempre alguma coisa nova a aprender, novidades, notícias que passariam ao lado do mundo se não fosse esta primorosa divulgação. Foi através deste blog que aprofundei (ou tomei conhecimento d')a obra alguns dos nomes que ouço hoje com maior regularidade – Roland Kirk, Steve Lacy, Peter Brötzmann, por exemplo. É por estas e por outras que a partir de agora o "mestre" tem um destaque especial na coluna ali ao lado.
2004/11/29

Burt Bacharach ou a Canção Pop Perfeita


If I could write a song half as good as "This Guy's In Love With You", I'd die a happy man.

Noel Gallagher (Oasis)


2004/11/28

Holy Ghost BoxSet


O habitualmente cinzento jornal Expresso, traz este fim-de-semana um excelente artigo sobre a caixa que reúne dez discos de Albert Ayler. Assinado por Rui Tentúgal, este artigo merece divulgação alargada, pelo que fica aqui o texto para os interessados:





Albert Ayler
O grito


«Holy Ghost» é um monumento sonoro à memória de Albert Ayler. Ouvi-lo continua a ser um risco

O original é uma caixa preta, quadrada, em laca, com incisões decorativas trabalhadas à mão - o centro com ornatos floridos debruado com volutas. O que a Ananana pôs à venda em Portugal é a sua versão em plástico, mas mesmo assim uma perfeita peça de artesanato da Revenant. Uma requintada «spirit box», caixa para preservar a memória e as recordações de alguém muito amado. No seu interior guardam-se as relíquias: dez discos, um livro de 208 páginas, um fac-simile do «booklet» que acompanhou a primeira edição de Spiritual Unity, uma edição especial da revista «The Cricket», o prospecto de um concerto, uma foto do homenageado aos 12 anos, um bilhete autógrafo e uma flor. À volta da caixa uma cinta em papel onde se pode ler: «Trane foi o pai. Pharoah foi o filho. Eu fui o Espírito Santo».

Abrir a caixa é libertar um grito. Os que sobrevivem e conseguem um dia voltar a colocar a tampa na sua posição original, podem dizer: eu vi o fantasma sagrado tornar-se espírito santo.

Holy Ghost é uma catedral em som, um monumento ao sumo sacerdote Albert Ayler. Holy Ghost mete medo. Bastam 6 minutos e 24 segundos do disco 6 para pôr as mãos a tremer a qualquer ser humano que saiba que ao carregar na tecla «play» do leitor de CD vai ouvir a primeira gravação alguma vez tornada pública de Ayler a interpretar «Love Cry/Truth is Marching In/Our Prayer» a 21 de Julho de 1967 na Igreja Luterana de São Pedro, em Nova Iorque, durante o funeral de John Coltrane.

Holy Ghost inclui as primeiras e as últimas gravações que Albert Ayler fez e muito material inédito ou pouco divulgado. Da sua discografia-base de 27 discos apenas repete partes do material de três, Albert Smiles with Sunny, The Copenhagen Tapes e Albert Ayler Live in Europe 1964-1966. Dois discos são preenchidos pela gravação de entrevistas e o 10º é um «bónus» com gravações da Banda do Exército norte-americano, onde Ayler era o saxofonista.

Por €120 tem-se acesso ao melhor guia possível para o percurso de um homem que fez de toda a sua vida uma viagem por territórios sem mapa. Na memória colectiva Ayler é o mais radical de todos os músicos que emergiram na sequência das conquistas de Coleman, Coltrane, Dolphy, Rollins e Cecil Taylor. Entrou aos gritos no mundo da música, o mundo tapou os ouvidos e acabou muito mais discutido do que conhecido, deixando um pequeno legado obscurecido por mitos que esta edição vem iluminar.

1 - A sua música não era só violência. O mais radical dos músicos sempre disse gostar de tocar coisas que as pessoas pudessem cantarolar. Os seus improvisos frequentemente retomavam a melodia principal. Era um melodista por natureza, embora gostasse de espremer todas as nuances possíveis das suas composições e não usá-las como trampolim para a improvisação.

2 - Ayler sabia tocar segundo a tradição e passou anos a interpretar todo o género de temas comerciais e dançáveis. «Deves saber tocar direito antes de aprenderes a tocar errado», disse um dia a um saxofonista sueco.

3 - A espiritualidade de Ayler não era facilmente explicável. Por um lado, defendia que a essência estava na música, na sua interpretação, na sua revelação, na sua «glória», e entendia o comércio da música como uma violação dos santos princípios. Tal como Archie Shepp, dizia que o jazz devia tender para a sua matriz primária e revoltar-se contra a forma de arte ultra-sofisticada em que se tornou. A música era sagrada, tinha títulos em sua glória («The Truth is Marching In», «Spirits Rejoice», «Spiritual Unity», «Bells»), e Ayler era um veículo de verdade e beleza, um instrumento de libertação de energia. Por outro lado, esta visão de glória era assombrada por demónios: «Witches & Devils», «Ghosts». «My Name» é a excepção num percurso em que Ayler sempre se quis anular como criador, para se mostrar como um instrumento de Deus.

4 - Num estudo agora publicado, é definida a lista das suas influências: Louis Armstrong, a polifonia de Nova Orleães, a Igreja Baptista, Sidney Bechet, Lester Young, Johnny Hodges, os saxofonistas de Lionel Hampton, Freddie Webster, Charlie Parker, Sonny Rollins, a «New Thing». Ouvida a música, parecem pontos num mapa de estrelas de tamanho ridículo quando o levantamos da mesa e o colocámos entre os nossos olhos e o universo.

5 - A música de Ayler será sempre difícil e críptica por muito claras que sejam as suas intenções políticas e espirituais, por muito assimilados que sejam os avanços técnicos que conquistou para a arte do saxofone tenor. «Pegar na música de Albert Ayler e extrair dela um ‘método’ é algo difícil de imaginar», escreve Derek Bailey em Improvisation.

Ayler nasceu em Cleveland, em 1936, e apareceu morto em Nova Iorque em 1970. O seu corpo foi retirado do East River na manhã de 25 de Novembro. Tinha 34 anos. Na certidão de óbito foi escrito: «Morte por afogamento». As muitas testemunhas da sua existência são unânimes em concluir que Ayler viveu como se soubesse que ia morrer naquele dia. Formou a sua linguagem muito cedo, desenvolveu-a, teve oito anos para a gravar e não deixou sinais de grandes coisas que estava predestinado a fazer se não tivesse morrido tão novo.

A galeria de ilustres personagens que desfila pelo livro incluído em Holy Ghost coincide na generalidade das opiniões e histórias: quando Ayler tocava, a maioria da assistência saía da sala, tapava os ouvidos com as mãos ou insultava-o. Os músicos paravam de tocar. Os que ficavam viviam uma epifania.

Por exemplo, o poeta Amiri Baraka (então ainda usava o nome LeRoi Jones) conta uma ida com Ayler a um concerto de Coltrane (que tocava com Eric Dolphy, Cecil Taylor e Elvin Jones). A meio do concerto, Ayler pega no saxofone, sobe para o palco e começa a tocar. «Pegou no tenor e começou a abrir um buraco no tecto por onde os seus anjos pudessem descer». Baraka descreve um som assustador. «Um som sem referências. Uma coisa que estava a nascer naquele preciso instante, e da qual todos éramos testemunhas. Uma coisa que saía a voar do seu instrumento, gritando com 100 vezes mais força que aquelas que estavam à sua volta. Uma força que podíamos ouvir e sentir à medida que nos engolia. Os músicos no palco, alguns dos melhores do mundo, olhavam espantados. Quando ele terminou, a pergunta que pairava no ar era: ‘What the fuck was that?’ Seguiu-se uma explosão de aplausos. Albert desceu do palco, e quando o espectáculo terminou, Trane foi direito a ele e perguntou-lhe: ‘Que tipo de palheta usas?’ Depois dessa noite, Ayler tornou-se o mais falado rebelde da nova música.»

Nas 208 páginas deste livro são mais que 208 os adjectivos que tentam qualificar a música de Albert Ayler: «Ele rugia através do saxofone, desde o fundo da garganta, de modo a produzir efeitos brutos, guturais»; «um canto avassalador. Não tem a ver com notas, tem a ver com som e força». Na capa de Free Jazz, Ornette Coleman pôs um quadro de Pollock. Nas notas do seu primeiro disco, Albert usou as palavras de H. P. Lovecraft: «Eu sou o Caos».

Terminada a leitura, fica na memória a tentativa de Gary Peacock em resumir o impossível: «Convidamo-lo a vir a uma sessão, ele veio, tocou connosco e matou-me, fracturou-me - a qualidade do som, a sua falta de autocensura... Foi uma festa, uma celebração. Havia uma qualidade na sua maneira de tocar que nos permitia tocar a partir de um local que não podemos nomear, não podemos definir. A música de Ayler não se pode discutir. Está para lá do domínio verbal. Ayler costumava dizer sobre a sua música: ‘Não é sobre nada. Não queiram fazer dela música sobre alguma coisa’.»

Seguimos a biografia escrita por Val Wilmer em As Serious as Your Life (1977), adaptada e actualizada para esta edição. Ayler nasceu a 13 de Julho de 1936 em Cleveland, Ohio. Tinha um irmão seis anos mais novo, Donald, e uma irmã que morreu à nascença. A família habitava uma zona residencial com população de várias raças. A mãe, Myrtle, era extremamente devota e participava nas actividades religiosas da comunidade. O pai, Edward, tocava saxofone, violino e cantava, e começou a ensinar-lhe saxofone alto desde muito novo. Albert era obrigado a praticar diariamente e aos domingos fazia duetos com o pai na igreja. Há memória de que foi a concertos de Illinois Jacquet e ouvia em casa Lester Young, Wardell Gray, Charlie Parker e Freddie Webster. Gostava particularmente de Parker, o que lhe valeu a alcunha de «Little Bird».

Aos 10 anos começou a estudar na academia de música e tornou-se o principal solista da orquestra da escola. Simultaneamente, dedicou-se ao golfe, numa altura em que o desporto era um exclusivo dos brancos. Foi capitão da equipa da sua escola, ganhou vários troféus e muita fama em Cleveland.

Com o seu colega de escola Lloyd Pearson passou a correr os bares para ouvir todos os saxofonistas que por lá passavam, e formaram um grupo, Lloyd Pearson and the Counts of Rhythm. Um dia, Little Walter Jacobs, um virtuoso da harmónica que tinha acompanhado Muddy Waters, contratou-os para uma pequena digressão. O sonho tornou-se pela primeira vez realidade: viajar o dia inteiro, e à noite tocar. «Drinking heavy and playing hard» - Ayler rejubilava. Com Little Walter and His Jukes aprendeu uma lição para toda a vida: blues e ritmo.

A falta de dinheiro para continuar os estudos levou-o para a tropa com 22 anos. Esteve três anos no exército como músico numa banda militar. Seis a sete horas por dia tocava o que lhe mandavam (marchas militares, sucessos pop, valsas vianenses e jazz americano), o que servia para desenvolver as suas capacidades de ler música em pauta. O resto do tempo usava-o para explorar as suas próprias ideias musicais (e tocar com um baterista camarada de tropa, o insuspeito Harold Budd, mais tarde um dos paisagistas da escola Brian Eno), enquanto ouvia Something Else!!!!, de Ornette, Giant Steps, de Coltrane e Hard Driving Jazz, de Coltrane e Cecil Taylor. Foi enviado para Orleães, em França, em 1959, mas frequentemente arranjava maneira de ir a Paris espreitar os clubes de jazz. O seu apetite natural por marchas militares foi aguçado ainda mais pelas marchas do exército francês, especialmente pelo hino nacional francês, «La Marseillaise», a que chamava «La Mayonnaise». Na tropa, Ayler desenvolveu uma intensa curiosidade em ouvir música popular dos mais diversos países (em Ocean of Sound, David Toop cita Garbarek a contar que Ayler viajou para o Norte da Noruega e da Suécia à procura de música tradicional e canções xamânicas, cujos ecos se podem encontrar em vários dos seus hinos).

É nesta altura que passa a tocar saxofone tenor. «Com o tenor conseguem-se exprimir todos os sentimentos do ‘ghetto’. Com este instrumento consegue-se verdadeiramente gritar a verdade». O homem gentil, de boas maneiras, que toca jazz mainstream, bebop, rock’n’roll e blues como qualquer outro elemento da banda do exército, transforma-se, depois de ouvir Ornette, num músico que toca coisas estranhas e loucas que ninguém percebe. Ornette tinha sancionado tudo aquilo que Ayler sempre pretendeu fazer, mas Ayler imediatamente recusou ser um seguidor de Coleman. No desenvolvimento da sua própria linguagem, Ayler sempre manteve em perspectiva as conquistas de Taylor, Coltrane e Ornette, ao mesmo tempo que se distanciava delas. «Eu tenho o meu próprio som».

Edward Ayler, o pai carnal, irá ser testemunha, anos mais tarde, de um encontro do filho com o pai espiritual: «Coltrane queria que Al lhe mostrasse como se toca aquela ‘free music’».

É nesta altura, em França, que tudo se começa a complicar. Para mostrar o «seu som», Ayler aproveita todas as oportunidades para subir a um palco. Gentilmente pedia autorização para se juntar aos desprevenidos músicos franceses que estavam a dar o concerto, estes ficavam contentes pela oportunidade de tocarem com um músico negro norte-americano, mas rapidamente se apercebiam do insólito que tinham «comprado». Ayler até podia começar os temas normalmente, mas quando começava a solar, disparava para a mais absoluta estranheza. As reacções eram sempre as mesmas: assobios, pateadas, o público e os músicos a saírem da sala. O «free jazz», pelo menos teoricamente, já não era novo em França, mas o facto de Ayler insistir em interromper concertos normais para mostrar a sua música deu maus resultados. Qualquer que fosse o concerto onde ele aparecesse, estava sempre fora de contexto.

Aproveitando as licenças, visitou a Dinamarca e a Suécia, onde sentiu pela primeira vez respeito pelas suas experimentações. Não seria bem um grande respeito, mais uma interpretação livre do facto de os nórdicos não se manifestarem como os latinos, mas foi suficiente para ele planear lá regressar depois de sair do exército.

Foi desmobilizado em 1961, na Califórnia. De volta a Cleveland, as suas ideias revolucionárias foram também aqui totalmente rejeitadas. Lloyd Pearson convenceu-se de que ele nunca pegara no saxofone durante o serviço militar. E também não achava particular graça a Ayler introduzir espirituais no repertório. «Ele dizia-me que tinha encontrado a verdadeira música e a verdadeira religião, e tudo estava intimamente ligado a Deus», diz Pearson, para quem aquela música apenas soava a barulho. «Quando ele tocava uma balada recusava-se a tocar a linha melódica. As pessoas reclamavam mas ele não cedia».

Cansado da «mentalidade estúpida» dos americanos, decide ir para onde o compreendem: os países nórdicos. Sentia que só ali podia mostrar a sua música e talvez gravar. Na Finlândia bate à porta de uma loja de discos, cujo dono é um guitarrista chamado Herbert Katz, a quem pede uma oportunidade para tocar. Este leva-o a acompanhar o seu quinteto numa rádio de Helsínquia. É aí que faz, a 20 de Junho de 1962, a primeira gravação da sua carreira como músico de jazz (ver disco 1).

Pouco depois, já na Suécia, volta a gravar, agora e pela primeira vez como líder. A 25 de Outubro de 1962, perante uma audiência de 25 pessoas na Academia de Artes de Estocolmo, grava o álbum Something Different!!!!!!, para a Bird Notes. No mês seguinte, já em Copenhaga, na Dinamarca, Ayler encontra-se pela primeira vez com músicos que estão ao seu nível, entre os quais Cecil Taylor, a alma gémea que tanto procurava. Taylor e Ornette eram os novos deuses da religião fundada por Coltrane e Rollins. Baralhavam completamente as referências de uma vanguarda subitamente desorientada que corria atrás daquela estranha música chamando-lhe «Free Jazz», ou, com menor imaginação, «The New Thing». Taylor andava em digressão pela Europa com o baterista Sunny Murray e o saxofonista Jimmy Lyons. Ayler apresentou-se e Taylor acabou por o contratar. Acabaram por ir à televisão dinamarquesa, onde gravaram a sessão que agora se revela no disco 1, possivelmente a 16 de Novembro de 1962.

Dois meses depois foi convidado a ir a Copenhaga gravar uma emissão para a Rádio Dinamarquesa. Essas gravações, editadas em My Name is Albert Ayler, incluem um dos poucos registos que editou em vida de uma interpretação em soprano, «Bye Bye, Blackbird». Comparada esta gravação com a de Taylor, as diferenças são enormes. Em My Name... a explosão de algo novo vinha escondida sob uma secção rítmica europeia demasiado «normal». Contudo, eram sinais mais que suficientes de que algo estava para acontecer. «Naquela altura a música ainda não estava totalmente formada na minha mente. Eu tocava, mas a música surgia devagar. Não imediatamente, como agora acontece».

Acaba por regressar aos EUA, toca no Take Three, em Greenwich Village, com Jimmy Lyons, em alto, Henry Grimes, no contrabaixo, e Sunny Murray na bateria. Coltrane e Dolphy apareciam frequentemente para os ouvir, e Ayler começa a ser conhecido em Nova Iorque. Ao contrário, em Cleveland era-lhe cada vez mais difícil encontrar trabalho. Corria os bares, com o saxofone na mão e tentava vender na rua as 50 cópias de Something Different!!!!!! que trouxera da Suécia. Foi pai, em Cleveland, mas mudou-se para casa de uma tia em Nova Iorque em 1963.

Øle Vestergaard Jensen, o responsável pelo primeiro álbum de Ayler, conseguiu levá-lo a gravar aos estúdios da Atlantic. Spirits (mais tarde editado com o título de Witches and Devils) é a primeira gravação de Ayler em estúdio com músicos da sua estatura: Norman Howard, Henry Grimes, Earle Henderson e Sunny Murray. Na mesma sessão grava com o pianista Call Cobbs Jr. (mais Grimes e Murray) uma série de espirituais que acabariam por ser recusados por Bernard Stollman para a nova etiqueta de música de vanguarda que iria lançar, a ESP-Disk (acabariam por formar o álbum Goin’ Home editado na Europa pela Black Lion). Stollman não achou particular graça a ouvir espirituais tocados daquela maneira. Na altura, o gospel era um segredo bem guardado da música afro-americana, muito pouco divulgado fora dos locais de culto (apesar de toda a sua influência na soul). E Ayler percebeu que o que aquelas vozes faziam, aquele canto tornado grito a Deus, era igual ao da sua música. O que eles conseguiam com a voz ele conseguia com o tenor. Goin’ Home, o disco de gospel, é o mais «simples» de todos, reduzido ao fundamental das melodias.

É em 1964 que Ayler consegue estabilizar o trio com que vai para sempre deixar a sua marca na história da música: Gary Peacock no contrabaixo e Sunny Murray na bateria. Gravam a 14 de Junho no Cellar Café, em Nova Iorque. O registo acaba por ser editado nos álbuns Prophecy e Albert Smiles With Sunny, e é agora recuperado em todo o seu esplendor no final do disco 1 e início do disco 2.

Em Julho de 1964, Ayler faz com este trio as primeiras gravações para a ESP. «Naquela altura eu estava musicalmente fora deste mundo. Tinha que tocar esta música para as pessoas». O resultado foi Spiritual Unity, um dos mais importantes discos da história do jazz. Gravado a 10 de Julho, em Nova Iorque, é um disco perfeito em termos de coesão e interacção do grupo. Ayler tentou explicá-lo como um nível especial de concentração, uma unidade entre pessoas «espirituais». «Não estávamos simplesmente a tocar, estávamos a escutar-nos mutuamente».

Alguns dias depois grava a banda-sonora do filme New York Eye and Ear Control de Michael Snow, com o seu grupo, mais Don Cherry, John Tchicai e Roswell Rudd. Surge novo convite da Dinamarca. Ayler leva consigo Murray, Peacock (que estava em casa há 15 dias desempregado, quase sem comer) e Don Cherry. Grava em Setembro de 1964 no Club Montmartre, em Copenhaga (editado em The Copenhagen Tapes e agora no disco 2 de Holy Ghost). No mesmo mês vai para estúdio, em Copenhaga, e grava Ghosts. «Queria tocar algo, como o início de ‘Ghosts’, que as pessoas pudessem trautear. Melodias populares que as pessoas entendessem. Usava essas melodias como ponto de partida e depois essas melodias apareciam e desapareciam durante a peça.» Simples-denso-simples-denso.

Antes de regressarem aos EUA ainda é gravada e editada uma apresentação do grupo numa rádio holandesa (The Hilversum Session). Nos EUA, Ayler faz-se acompanhar por diferentes músicos, nomeadamente o irmão Donald, que tinha passado a tocar trompete, Charles Tyler, em sax alto, e o baixista Lewis Worrell, que tinha conhecido na tropa, e apenas manteve Murray na bateria. Dão um concerto a 1 de Maio de 1965 no Town Hall de Nova Iorque, que a ESP grava e edita com o título de Bells. «Conseguimos uma harmonia e um ritmo divinos».

A ESP também grava o concerto que os irmãos Ayler, Tyler, Grimes, Peacock, Murray e Call Cobbs deram a 23 de Setembro de 1965 na Judson Hall, de Nova Iorque, e edita-o como Spirits Rejoice. São as últimas gravações que faz com Gary Peacock, que na altura decidiu ir para o Japão estudar filosofia Zen. Seguem-se as edições de Sonny’s Time Now (gravado em Novembro desse ano), com a participação do poeta LeRoi Jones, que o editou na sua etiqueta Jihad (Jones/Baraka pretendia editar outro LP de Ayler e gravou um concerto deste com Pharoah Sanders num comício no Harlem, mas só agora essa gravação é pela primeira vez revelada no disco 6 de Holy Ghost). Amiri Baraka tem uma profunda admiração por ele e escreve em 1966: «Albert Ayler is the dynamite sound of the time». Fica siderado por aquela «música que vai além das notas para chegar ao som. Que tenta libertar-se de qualquer conceito para ser só emoção. Albert colocou todo o seu empenho na explosão do som. Onde Coltrane era lírico, Ayler era poderoso».

A ligação entre ambos incluiu ainda a publicação do texto «To Mr. Jones - I Had a Vision» na revista «The Cricket» (que Baraka fundou com Larry Neal e AB Spellman, e que esta caixa reproduz em fac-simile - é neste famoso texto que Ayler se diz tocado pela mão de Deus, dando como prova da marca divina a falta de pigmento no queixo que fazia com que a sua barbicha fosse branca), e a edição de Live at Slug’s Saloon (1 de Maio de 1966), desta vez com a inclusão do violinista Michel Sampson (um músico de formação clássica que o vai acompanhar até aos concertos do Village) e do baterista Ronald Shannon Jackson, que substitui Murray.

O Slug’s era na altura o poiso de Ayler e há muitos registos desse tempo, mas Holy Ghost mostra pela primeira vez Ayler naquele local a tocar como convidado de outra banda, no caso o quinteto de Burton Greene (disco 2). Outra preciosidade dessa altura (discos 3 e 4) são os concertos deste quinteto de Ayler a 16 e 17 de Abril de 1966 no La Cave, em Cleveland.

A cronologia segue com o álbum Albert Ayler Live in Europe 1964 - 1966, gravado a 3 de Setembro de 1964 no Cafe Montmartre, em Copenhaga, e a 3 de Novembro de 1966 em Berlim, perante a maior assistência de toda a sua carreira. A digressão passa a 7 de Novembro por Lorrach, Alemanha (álbum Lorrach/Paris 1966), a 8 por Roterdão, na Holanda (disco 5), e a 13 pelo Festival de Jazz de Paris (álbum Lorrach/Paris 1966). Daniel Caux lembra esse dia: «Um vento forte de poética loucura começou a varrer a sala. Um vibrato de larga amplitude. Um tocar que inclui simultaneamente diferentes notas, guinchos, gritos, assobios e súbitas melodias parecidas com marchas ou canções de crianças. O chão sob as nossas cadeiras parecia tremer».

Outra série importante de concertos é realizada em Nova Iorque e marca o início do contrato com a Impulse! As gravações acabam reunidas em Live in Greenwich Village: The Complete Impulse Recordings (inclui Albert Ayler in Greenwich Village e The Village Concerts), e abarca as datas de 28 de Março de 1965, no Village Gate, 18 de Dezembro de 1966 no Village Vanguard, e 26 de Fevereiro de 1967 no Village Theatre. Nestas gravações Ayler acolhe na sua banda mais um músico de formação clássica, o violoncelista Joel Freedman. E é a última vez que grava com Henry Grimes, que desaparece, para só ser «encontrado» recentemente a viver na mais absoluta miséria e na ressaca de inúmeros tratamentos psiquiátricos.

Val Wilmer observa o efeito da inclusão de instrumentos clássicos na sua música: «Quando ele se referia a tocar um ‘grito mudo’ isso era incompreensível e parecia vagamente ridículo para todos os que estavam fora do círculo de músicos que o acompanhavam, mas em algumas das suas últimas gravações, quando a sua técnica excepcional lhe permitiu ‘inventar’ um novo alcance para o saxofone, ele aliava o violino, o violoncelo e o contrabaixo, tocados no registo mais alto - fazendo mesmo o saxofone soar como um instrumento de cordas - e cria um efeito de canto no limite da dor - ou grito - com uma espécie de silêncio no seu âmago».

O disco 6 é o mais precioso de todo o conjunto. Começa com a ida do quinteto de Ayler a 30 de Junho e 1 de Julho de 1967 ao festival de Jazz de Newport. O percussionista Milford Graves recorda o evento como algo muito especial: chovia, o público começou a sair, o grupo entrou em palco e deu um concerto tão memorável que toda a gente regressou sem se importar com a chuva; tocaram o tema «Japan» que condensa toda uma longa tradição de etnomusicologia cultivada por Coltrane e Ayler; e porque este é um dos primeiros registos de Albert a cantar.

Parece um ensaio para o que iria acontecer dias depois. John Coltrane morre deixando como último desejo que Ayler e Ornette tocassem no seu funeral. A 21 de Julho de 1967, Albert Ayler entra na Igreja Luterana de São Pedro em Nova Iorque para cumprir a vontade. Toda a sua vida usou como matéria-prima os espirituais, os cantos fúnebres e as marchas, formou grupos para «celebrar colectivamente os espíritos», com Coltrane, Sun Ra, Pharoah Sanders tornou-se «aquele-que-procura-Deus», não um deus físico, mas um deus místico, pura energia. Os irmãos Ayler tocam um «medley» que inclui «Our Prayer» e «The Truth is Marching In», acompanhados por Richard Davis, no contrabaixo, e Milford Graves, na bateria. Em nome do Pai, Ayler canta para ele pela última vez. Dentro da igreja, numa gravação que tem tanto de má como de emotiva, a palavra da salvação é um grito avassalador.

O tema seguinte, também é igualmente simbólico - o encontro do Filho com o Espírito Santo: Pharoah e Albert no já referido comício do Harlem.

A transição de ano é assinalada pelas gravações nos estúdios Capitol, em Nova Iorque, de Love Cry, para a Impulse! Depois a vida e a música de Ayler sofrem uma marcante viragem com a entrada em cena de Mary Parks (que usava o nome artístico de Mary Maria). Ela tocava piano e harpa e escrevia letras de canções. Ayler convenceu-a a tocar também sax soprano. Mary começa a tratar de todos os assuntos de trabalho de Albert e passam a tocar juntos todos os dias, incluindo nos concertos. Foi graças a Mary Maria que Ayler começou a cantar.

Em Setembro de 1968, grava New Grass, o mais controverso de todos os seus álbuns. Inclui um grupo gospel e o próprio Ayler a cantar. Tem uma batida de rock e elementos de rhythm-and-blues. Novamente Ayler é acusado de desrespeitar as tradições. Baraka escreve no «The Cricket»: «Brother Ayler got lost». «Parecia que Albert tinha abandonado os raios e trovões para fazer algo ‘comercial’. Ainda me pergunto o que é que teria acontecido». Para ajudar à compreensão, Holy Ghost revela (no disco 6) algumas das demos do álbum gravadas por Ayler.

O início do disco 7 é um parêntesis necessário para se compreender o final desta história. Apresenta Donald Ayler à frente de um sexteto em Janeiro de 1969 no Town Hall de Nova Iorque, tendo Albert como convidado. A relação entre os irmãos estava a passar dias difíceis pois Donald não se enquadrava nos projectos musicais de Albert. Começou a fraquejar psicologicamente e, apesar de algumas tentativas para começar uma carreira própria, afundou-se com problemas mentais. Esta é a última vez que tocam juntos.

Na sequência de New Grass, o produtor Bob Thiele quis que, para o álbum seguinte, Albert tocasse com um grupo de jovens músicos de rock, mas este acabou por tocar com o seu grupo, cedendo apenas na inclusão do guitarrista dos Canned Heat, Henry Vestine, que tinha manifestado desejo de gravar com ele. O resultado foram os álbuns Music is the Healing Force of the Universe e The Last Album, gravados em Agosto de 1969 nos estúdios Plaza Sound, em Nova Iorque - era a última vez na vida que gravava nos Estados Unidos. «Na vida é preciso fazer mudanças, morrer e nascer novamente, artisticamente falando. É um processo de rejuvenescimento», justificou Ayler.

A crítica não o poupou: «Albert Ayler anda a fazer álbuns conceptuais quase-cósmicos abarrotados com ineptos roubos ao rock e interpretações descuidadas», escrevia Lester Bangs na «Creem».

Em Julho de 1970 vai para França e grava a 25 e 27 dois históricos concertos em Saint-Paul-de-Vence. A diferença entre as dificuldades que ali viveu no início da carreira e este momento são radicais. Maio de 68 tinha mudado tudo, pelo que desta vez foi recebido como um herói. Aimé Maeght, negociante de arte, dona da Galeria Maeght e da Fundação com o mesmo nome, contrata Daniel Caux para organizar uma série de concertos no âmbito de uma exposição de arte norte-americana que ali decorria. Os concertos, que pretendem dar uma ideia das novas direcções da música norte-americana são de Ayler, Sun Ra (a primeira apresentação da Arkestra fora dos Estados Unidos), La Monte Young e Terry Riley. É um evento memorável, transmitido pela rádio, televisão e registado em filme e fotos. Mas as gravações são editadas só depois da sua morte nos álbuns Nuits de la Fondation Maeght e Albert Ayler Quintet 1970 (este apenas na editora italiana Blu Jazz). Holy Ghost completa o retrato com a edição de um concerto informal num clube junto ao local onde a banda ficou hospedada.

Caux lembra que foi durante a estadia em Saint-Paul-de-Vence que Ayler recebeu a notícia de que o seu irmão Donald tinha sido internado num hospital psiquiátrico. Sentiu-se culpado e dizia que não tinha tomado conta dele. Outras más notícias chegaram a França, principalmente a de que a Impulse! tinha deixado de estar interessada nos seus serviços. Olhando à volta era fácil perceber que os músicos que o acompanhavam estavam muito longe da qualidade dos seus «apóstolos» dos tempos áureos. Aos 34 anos começa a convencer-se de que estava a perder tudo o que tinha conquistado.

Em Novembro de 1970, de regresso aos EUA, Ayler desapareceu de casa durante 20 dias. Mary Maria chamou a polícia, por temer pela segurança de Ayler, mas nunca foi muito explícita nas justificações do seu medo. Certo é que o corpo foi retirado do East River na manhã de 25 de Novembro de 1970 e foi identificado pelo pianista Call Cobbs Jr. e pelo pai. Não foi realizada autópsia. O obituário na «Down Beat» dizia que as suas interpretações tinham muito pouco a ver com qualquer outro jazz, passado ou presente.

Na passada quinta-feira cumpriram-se 34 anos desde que Albert Ayler morreu com 34 anos. Ele teria gostado de ver significados nesta coincidência. E teria agradecido à Revenant ter espalhado pelo mundo «spirit boxes» em sua memória. A dúvida está na forma como teria preferido que o recordássemos - a frase do primeiro disco, «eu sou o Caos», ou uma resposta no meio de uma entrevista: «Albert, o que costumas fazer quando não estás a tocar música?» «Gosto de me sentar e olhar para a minha mulher».

Foi enterrado em Cleveland com uma lápide onde está escrito que serviu no Vietname - lugar onde nunca esteve. Quando muito, podiam ter escrito «Apocalypse Now».»

Texto de Rui Tentúgal

Bem, caríssimos e fiéis leitores, acho que já sabem o que eu quero receber neste Natal.

Eu Quero Um Samba Feito Só P'ra Mim





Este é o novo wallpaper do personal computer cá de casa. A final do Campeonato do Mundo de 1962, no Chile, foi disputada entre Brasil e Checoslováquia. Os europeus entraram no jogo a ganhar. Na foto, captada no momento exacto de uma finta, Garrincha engana de modo sublime um adversário: enquanto o checoslovaco voa na direcção da bola, já o pé do "Anjo das Pernas Tortas" se inclina na direcção oposta. O jogo terminou em 3-1, a favor do Brasil, e Garrincha tornou-se Bicampeão do Mundo.


João Gilberto: "In Tokyo"
[Verve, 2004]

Apesar de estar velho, apesar de ter cancelado o concerto do ano passado no Coliseu, apesar de já ter gravado material que lhe garante entrada directa para o altar dos deuses, João Gilberto editou este ano a gravação de um concerto no Japão. Gilberto é, com Miles e Coltrane, um dos poucos repetentes da lista publicada ali abaixo e uma das minhas devoções mais constantes. "Melhor que o silêncio só João", disse Caetano. Nós não dizemos nada, ficamos só a escutar a divindade.
2004/11/26

2046




Não, isto não é a sequela do “In the mood for love”. Apesar de realizado pelo mesmo Wong Kar Wai, interpretado pelo mesmo Tony Leung, ensombrado por aquela mesma coisa do amor, isto não tem nada que ver com aquele filme que guardamos na lista dos “filmes da vida” e que nos perfurou a alma. “2046” é diferente. Há um homem que é escritor e muitas mulheres, há tentativas – fracassadas - de romance, de entrega, de amor. Mas é tudo demasiado explícito, demasiado revelado, demasiado exposto. Há algumas pontas soltas, umas vezes interessantes, outras demasiado perdidas. O filme dá demasiadas voltas e nunca se encontra, nunca é confortável. Mas atira-nos à cara a dificuldade/impossibilidade do amor. E merece uma visita atenta.
2004/11/25

Things Behind the (Rising) Sun


Brad Mehldau é um dos mais famosos pianistas da actualidade. Esta gravação piano solo, vinda da terra do sol nascente, é mais um tijolo na sua obra em construção (acelerada). E é uma daquelas coisas que tanto pode agradar aos experts (ai, aquela técnica superlativa) como aos fans de pop/rock - as versões de Radiohead e Nick Drake (Things Behind the Sun, River Man) são aperitivos irresistíveis. E ainda há Monk('s Dream) e Gershwin (Someone to Watch Over Me).



Brad Mehldau: "Live In Tokyo"
[Nonesuch, 2004]

Will Holshouser


Workshop com o Will Holshouser Trio, com o próprio em acordeão, Ron Horton, trompete e David Phillips, contrabaixo. Terá lugar nos dias 9 e 10 de Dezembro no Estúdio da ACTA (Companhia Teatro do Algarve) na rua Cunha Matos, 23, Faro. As aulas serão das 15h às 20h. Para qualquer informação adicional, contactar:

Associação Grémio das Músicas
R. Gonçalo Barreto, 2
8000-360 Faro
Tel/Fax: 289-812576
TM: 96-3947846
mail: ideamusic@mail.telepac.pt
www.gremiodasmusicas.org

Entretanto, é tempo de lembrar um disco destes senhores lançado pela Clean Feed:



Will Holshouser Trio: "Reed Song"
[Clean Feed, 2002]
2004/11/24

Fumar Mata




Pelo menos é o que se pode deduzir do filme mexicano "Nicotina" (estreia esta semana). A sombra de "Amor Cão" (Iñarritu) paira no horizonte, mas Tarantino é a referência básica. O filme de Hugo Rodriguez serve uma tragédia bem embrulhada de comédia. Há grandes pormenores cómicos, mas infelizmente o fio narrativo é sempre muito previsível e pobre. Vale o rol de personagens extravagantes, com especial destaque para o par da barbearia. Ainda bem que os velhotes da "Barbearia Campos" são mais tradicionais. No máximo arrisco-me a sair de lá com um corte de cabelo horrível (como acabou de me acontecer hoje).
2004/11/22

Sobre o Estudo dos Pássaros


Gravação paupérrima, horrível, som porco, qualidade sonora=0. Mas "Ornithology" compensa tudo.



Charlie Parker: "Bird at St. Nicks"
[Jazz Workshop, 1950]
2004/11/20

100 Discos

[Gosto de listas. Bem sei que são enganadoras, superficiais, inutéis. Mas eu gosto. Divirto-me a fazer juízos de valor sobre a personalidade com base nas escolhas de discos (exercício falso e futil, mas engraçado). Como não me irão convidar para escolher uma lista dos "100 discos do século XX" para a revista OP, publico a minha escolha aqui no blog. O critério usado foi referir os discos que até agora mais ouvi, os que mais me marcaram, os que abriram portas, os que mais gosto. Tentei não referir mais que um disco por artista, mas houve casos em que foi impossível reduzir a escolha a uma obra só (Miles, Coltrane). Assim, tendo em conta todas estas contingências, se eu fosse para uma ilha deserta (partindo do princípio que lá houvessem tomadas eléctricas e leitores de cds e só pudesse levar 100 discos na bagagem) provavelmente levaria estes:]

Air / Moon Safari 1998
Albert Ayler / Live In Greenwich Village 1967
Amália Rodrigues / Com Que Voz 1970
Archie Shepp / Attica Blues 1972
Art Ensemble of Chicago (The) / Les Stances a Sophie 1970
Augustus Pablo / King Tubby Meets Rockers Uptown 1976
Beach Boys (The) / Pet Sounds 1966
Beatles (The) / Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band 1967
Belle & Sebastian / If You're Feeling Sinister 1996
Bill Evans / You Must Believe In Spring 1977
Blur / Blur 1997
Bonnie Prince Billy / I See a Darkness 1999
Brian Eno / Discreet Music 1975
Bud Powell / The Amazing Bud Powell, Vol.1 1949
Can / Future Days 1973
Caravan / In the Land of Grey and Pink 1971
Carole King / Tapestry 1971
Cecil Taylor / Silent Tongues 1974
Charlie Haden / Liberation Music Orchestra 1970
Charlie Mingus / The Black Saint and the Sinner Lady 1963
Chet Baker / The Best of Chet Baker Sings 1959
Chick Corea / Return to Forever 1972
Chico Buarque / Ópera do Malandro 1985
Cinematic Orchestra (The) / Motion 1999
Clash (The) / London Calling 1979
Curtis Mayfield / Curtis 1970
Dave Brubeck / Time Out 1959
David Bowie / The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars 1972
Deep Purple / Made In Japan 1972
Dizzy Gillespie / Afro 1954
Don Cherry / Brown Rice 1975
Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach / Money Jungle 1962
Durutti Column (The) / The Return of the Durutti Column 1979
Elis Regina / Elis 1977
Eric Dolphy / Out To Lunch! 1964
Faust / Faust IV 1973
Frank Zappa & The Mothers of Invention / We're Only In It for the Money 1968
Gato Barbieri / Latino America 1973
Glenn Gould / Bach: Goldberg Variations 1955
Go-Betweens (The) / The Friends of Rachel Worth 2000
Godspeed You Black Emperor! / Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven! 2000
György Ligeti / Kammerkonzert / Ramifications / Lux Aeterna / Atmosphères 1970
Herbert / Bodily Functions 2001
Herbie Hancock / Head Hunters 1973
Horace Silver / Song for My Father 1964
Iggy & The Stooges / Raw Power 1973
Jaco Pastorius / Jaco Pastorius 1976
Jim O'Rourke / Eureka 1999
João Gilberto / The Original Bossa Nova Recordings 1961
John Cale / Paris 1919 1973
John Coltrane / Blue Train 1957
John Coltrane / A Love Supreme 1965
John Fahey / The Dance of Death & Other Plantation Favorites 1964
John Zorn / The Gift 2001
Keith Jarrett / The Köln Concert 1975
King Crimson / In the Court of the Crimson King 1969
Kraftwerk / Trans-Europe Express 1977
Led Zeppelin / Led Zeppelin IV 1971
Lee "Scratch" Perry / Arkology 1997
Leonard Cohen / Songs of Love and Hate 1971
Lou Reed / Transformer 1972
Marvin Gaye / Let's Get It On 1973
Massive Attack / Blue Lines 1991
Mercury Rev / Deserter's Songs 1998
Miles Davis / Kind of Blue 1959
Miles Davis / In A Silent Way 1969
Nick Drake / Pink Moon 1972
Nina Simone / Nina Simone and Piano! 1970
Nirvana / Nevermind 1991
Ornette Coleman / Free Jazz 1960
Pan Sonic / Vakio 1995
Penguin Café Orchestra / Concert Program 1995
Peter Brötzmann Octet (The) / Machine Gun 1968
Pink Floyd / The Piper at the Gates of Dawn 1967
Pixies (The) / Bossanova 1990
Portishead / Roseland NYC Live 1998
Robert Johnson / King of the Delta Blues Singers 1937
Roxy Music / Roxy Music 1972
Sex Pistols / Never Mind the Bollocks Here's the Sex Pistols 1977
Sigur Rós / Ágætis Byrjun 1999
Smashing Pumpkins (The) / Mellon Collie and the Infinite Sadness 1995
Smiths (The) / The Queen Is Dead 1986
Soft Machine (The) / Third 1970
Sonic Youth / Daydream Nation 1988
Sonny Rollins / Saxophone Colossus 1956
Spring Heel Jack / Live 2003
Stan Getz & João Gilberto / Getz/Gilberto 1964
Stereolab / Aluminum Tunes 1998
Steve Reich / Early Works 1987
Stevie Ray Vaughan / Texas Flood 1983
Stevie Wonder / Songs In the Key of Life 1976
Sun Ra / Space Is the Place 1972
Talking Heads / Remain In Light 1980
Thelonious Monk / Straight, No Chaser 1966
Tim Buckley / Happy Sad 1969
Tom Waits / Swordfishtrombones 1983
Tortoise / Millions Now Living Will Never Die 1996
Vandermark 5 / Single Piece Flow 1997
Velvet Underground / The Velvet Underground & Nico 1967
Weather Report / Heavy Weather 1977
2004/11/19

A Um Deus Desconhecido


Vanderblog


Ken Vandermark, o talentosíssimo saxofonista de Chicago, também tem um blog, o Vanderblog! Para acompanhar as leituras vanderbloguísticas, o ideal será a última sugestão do Vandermark 5:


Vandermark 5: "Elements of Style, Exercises In Suprise"
c/ Jeb Bishop, Dave Rempis, Kent Kessler & Tim Daisy
[Atavistic, 2004]
2004/11/18

Como Uma Imagem


O novo filme de Agnès Jaoui, com a preciosa colaboração de Jean Pierre Bacri, está nos cinemas. "Comme Une Image" [em português "Olhem para Mim"(?)] segue a mesma fórmula d'"O Gosto dos Outros", mas talvez de modo mais apurado, aperfeiçoado, intensificado. A forma natural e leve como se mostram as teias das relações humanas, especialmente nos pormenores (pequenos mas definidores), é exemplar. Este filme consegue, apesar de aparentemente simples, dramatizar sem resvalar para a lamechice. E questiona com informalidade as relações, a importância da imagem, nós e os outros (novamente a tela do cinema como espelho). Um óptimo filme.

E por falar de cinema, vale a pena dar uma volta pelo sítio onde o Jorge Mourinha armazena os seus escritos sobre a filmalhada que por aí vai saindo: A Casa Encantada. Anotem, que ele sabe do que fala (excepto quando se atira ao Vincent Gallo).
2004/11/16

A Doçura da Água (ou A Tentativa de Fuga ao Determinismo Histórico)

Acabadinho de sair de um concerto daqueles aBsolutamente imperdiveis e já há outro à porta. No dia 4 de Dezembro os Spring Heel Jack vão actuar em Coimbra, no Jazz Ao Centro. Este colectivo é dos nomes mais importantes da improvisação da actualidade. Desde 1999 que colaboram na série "Blue Series" da editora Thirsty Ear, lançando consecutivamente discos obrigatórios - "Live" de 2003 vai provavelmente ficar como um marco na música do século XXI (a isto não será alheio o lote de convidados espe[/a]ciais: Evan Parker, Matthew Shipp, Han Bennink, William Parker e J Spaceman). Há sempre quem diga que isto não é jazz, que não respeita a tradição, mas os pioneiros nunca são bem recebidos pelos contemporâneos, a consagração chega sempre depois - terá sido Jerry Roll Morton imediatamente idolatrado pelas massas ao exibir aquela música que enganosamente apresentava como sua invenção? Os Spring Heel Jack estão aí, com a coolness de um refrigerante fresquinho e uma relevância que não pode ser ignorada. Em antecipação ao concerto de Coimbra, hoje rodou por aqui a sua última gravação, editada este ano:



Spring Heel Jack: "The Sweetness of the Water"
c/ Wadada Leo Smith, Evan Parker, John Edwards & Mark Sanders
[Thirsty Ear, 2004]
2004/11/15

A Música


Cecil Taylor passou por Guimarães. Apresentou-se em trio, acompanhado de Bill Dixon e Tony Oxley. Na primeira parte do concerto cada elemento do trio mostrou-se a solo, tocando dois ou três temas. Tony Oxley foi o primeiro a entrar e começou com uma interacção entre a bateria e sons pré-gravados (atenção: não é só em concertos da Britney que há playback). Depois substituiu as baquetas por correntes, o que criou um efeito visualmente giro (“uau, que cena fora!”, diriam alguns), mas o efeito musical gerado foi evidentemente mais pobre. Bill Dixon teve à disposição dois microfones para amplificar o som do seu trompete: um normal e outro que gerava em tempo real efeitos de eco-delay-repeat. Para bem dos nossos pecados, Dixon passou a maior parte do seu solo a trabalhar sobre os efeitos, o que saiu globalmente mais agradável aos sentidos do que a investida tradicional (palavra mal empregue, neste caso). Cecil Taylor entrou em palco a declamar um poema (?) numa actuação/entoação que recomendava a chamada de um exorcista. Depois sentou-se ao piano e correspondeu àquilo que todos (os que conheciam) esperavam: improviso, salto, melodia, quebra, fogo, ritmo, silêncio. Música, afinal. Na segunda parte, já com os três em palco revelaram-se todos os segredos. Taylor exibiu o seu caos definido ao pormenor: rendilhados quase clássicos interrompidos por brutalidade, notas imersas em ternura bruscamente abandonadas por uma agressão, violência sussurrada em notas rebeldes, teclas de piano desobedientes à ordem da banalidade. Houve diálogos com os acompanhantes (de grande nível, mas obviamente diminuídos pela presença do gigante), houve espaço, pontas soltas, meiguice e terror. Cecil Taylor continua o mesmo: provocador, inconformado, pioneiro, radical. E sempre imprevisível como uma finta do Cristiano Ronaldo. Génio, pois com certeza.
2004/11/11

Estágio Ceciliano


O concerto de Cecil Taylor em Guimarães é já no próximo sábado. Por aqui já entramos em estágio.


"Unit Structures" [Blue Note, 1966]


"Silent Tongues" (Live at Montreux Jazz Festival) [1201 Music, 1974]


"The Owner of the River Bank" [Enja, 2004]

A quem tenha dificuldades na escuta da música deste homem, recomenda-se o excelente artigo "TPC: Uma hipótese de abordagem à Música de Cecil Taylor", publicado pelo Eduardo Chagas no seu Jazz e Arredores. Estimados leitores, este fim de semana vemo-nos por Guimarães!

Back to the Classics




Charles Mingus: "Mingus Ah Um"
[Columbia, 1959]

Charles Mingus, o contrabaixo agitador, artista, o político, o revolucionário, o génio*.



*Palavra que deve ser utilizada muito poucas vezes e que significa "o mais elevado grau da potência intelectual que o espírito humano pode atingir" [in DLPO].
2004/11/09

Eu Hei-de Amar


António Lobo Antunes, um dos maiores escritores do mundo, está em festa. O autor português comemora 25 anos de vida literária, apresenta um novo romance ("Eu Hei-de Amar Uma Pedra") e uma fotobiografia. Enquanto isto há uma festa no São Luiz em modo de "prémio carreira". Questionado sobre quem gostaria que estivesse presente nesta festa, Lobo Antunes solicitou Thelonious Monk, Charlie Parker, Lester Young. Ao que parece não foi possível contratar tais músicos, mas mesmo assim a celebração deverá ter sido bonita. Para não destoar e participar na celebração do mestre, por aqui hoje ouviu-se a voz de Vitorino a percorrer os poemas do grande escritor do nosso tempo:



Vitorino: "Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada"
Letras de António Lobo Antunes
[EMI-VC, 1992]
2004/11/08

Lénia meets Garbarek


Desde há uns tempos que a minha amiga blogger Lénia anda envolvida numa estranho triângulo afectivo com o saxofonista norueguês Jan Garbarek e o pianista Keith Jarrett. A Lénia nega, está sempre a dizer que não, tenta afugentá-los, mas eles perseguem-na constantemente. Este assédio já se mantém há algum tempo, mas parece que vai continuar. O Jarrett já lhe voltou a piscar o olho, no post anterior. E agora, ao tempo que se combina um reencontro com a amiga pós moderna do blog da Lua, acabo de receber um par de Garbareks dos 1970's (do seu melhor). Cara amiga, quer-me parecer que já sei qual vai ser a banda sonora do nosso rendez-vous...


Jan Garbarek, Arild Andersen & Edward Vesala: "Triptykon"
[ECM, 1973]


Jan Garbarek Group: "Photo With..."
c/ Bill Connors, John Taylor, Eberhard Weber & Jon Christensen
[ECM, 1979]

Dance Me to the End of Love


Para tentar recuperar de uma imensa turbulência emocional que varreu nos últimos dias, há regresso a Keith Jarrett. Desta vez a um impressionante solo de 1971, Jarrett a improvisar e transpirar sentimento.


Keith Jarrett: "Facing You"
[ECM, 1971]
2004/11/04

Nightmare Before Christmas*


Afinal é mesmo verdade, Bush ganhou as eleições, não há nada a fazer. Um pesadelo, a bem dizer. Para esquecer tristezas e relembrar que nem todos os americanos são estúpidos, hoje por aqui ouve-se Tim Berne. O saxofonista de Nova Iorque (de onde mais poderia ser?) tem em "Science Friction" um registo generoso. Moderno, urbano e sofisticado. Sim, a América também é isto.


Tim Berne: "Science Friction"
c/ Marc Ducret, Craig Taborn & Ton Rainey
[Screwgun, 2002]

(*E já não falta muito para o Natal, pois não?)
2004/11/02

Lulu, Where Are You?


Quando três gigantes se encontram o resultado só pode ser bom. Em 1987 John Zorn, George Lewis e Bill Frisell juntaram-se para gravar "News for Lulu". O imprevisto trio improvisa em torno de composições de Kenny Dorham, Hank Mobley, Sonny Clark e Freddie Redd. E a dança entre o saxofone de Zorn [ah, o concerto da Aula Magna, onde não fui], o trombone de George Lewis [ah, o concerto da Gulbenkian, onde fui!] e a guitarra de Frisell é plena de swing, melodia e liberdade.



John Zorn, George Lewis & Bill Frisell: "News for Lulu"
[Hat, 1987]

The Next Step


No dia 12 de Dezembro de 2003 a Ana Rita (do livejournal "cabraculta") deixou neste blog o seguinte comentário:

"O Kurt Rosenwinkel deu ao mundo um dos mais sublimes discos de jazz contemporâneos da história. O "The Next Step" é simplesmente incrível."

Há bem pouco tempo foi aqui referido o disco "Heartcore" (de 2003) e a Petra, muito a propósito, ofereceu-se amavelmente para me emprestar o "The Next Step". Obviamente aceitei, o que, para além de me dar a conhecer o disco, proporcionou um momento de convívio onde entre outros temas se discorreu sobre a influência do uso do chapéu na grandeza dos guitarristas (vide capa deste disco).

E o disco? Oh, que disco... Acho que a Ana Rita tinha mesmo razão.



Kurt Rosenwinkel: "The Next Step"
c/ Mark Turner, Ben Street & Jeff Ballard
[Verve, 2001]

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