O habitualmente cinzento jornal
Expresso, traz este fim-de-semana um excelente artigo sobre a caixa que reúne dez discos de Albert Ayler. Assinado por Rui Tentúgal, este artigo merece divulgação alargada, pelo que fica aqui o texto para os interessados:
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Albert Ayler
O grito
«Holy Ghost» é um monumento sonoro à memória de Albert Ayler. Ouvi-lo continua a ser um risco
O original é uma caixa preta, quadrada, em laca, com incisões decorativas trabalhadas à mão - o centro com ornatos floridos debruado com volutas. O que a Ananana pôs à venda em Portugal é a sua versão em plástico, mas mesmo assim uma perfeita peça de artesanato da Revenant. Uma requintada «spirit box», caixa para preservar a memória e as recordações de alguém muito amado. No seu interior guardam-se as relíquias: dez discos, um livro de 208 páginas, um fac-simile do «booklet» que acompanhou a primeira edição de Spiritual Unity, uma edição especial da revista «The Cricket», o prospecto de um concerto, uma foto do homenageado aos 12 anos, um bilhete autógrafo e uma flor. À volta da caixa uma cinta em papel onde se pode ler: «Trane foi o pai. Pharoah foi o filho. Eu fui o Espírito Santo».
Abrir a caixa é libertar um grito. Os que sobrevivem e conseguem um dia voltar a colocar a tampa na sua posição original, podem dizer: eu vi o fantasma sagrado tornar-se espírito santo.
Holy Ghost é uma catedral em som, um monumento ao sumo sacerdote Albert Ayler. Holy Ghost mete medo. Bastam 6 minutos e 24 segundos do disco 6 para pôr as mãos a tremer a qualquer ser humano que saiba que ao carregar na tecla «play» do leitor de CD vai ouvir a primeira gravação alguma vez tornada pública de Ayler a interpretar «Love Cry/Truth is Marching In/Our Prayer» a 21 de Julho de 1967 na Igreja Luterana de São Pedro, em Nova Iorque, durante o funeral de John Coltrane.
Holy Ghost inclui as primeiras e as últimas gravações que Albert Ayler fez e muito material inédito ou pouco divulgado. Da sua discografia-base de 27 discos apenas repete partes do material de três, Albert Smiles with Sunny, The Copenhagen Tapes e Albert Ayler Live in Europe 1964-1966. Dois discos são preenchidos pela gravação de entrevistas e o 10º é um «bónus» com gravações da Banda do Exército norte-americano, onde Ayler era o saxofonista.
Por €120 tem-se acesso ao melhor guia possível para o percurso de um homem que fez de toda a sua vida uma viagem por territórios sem mapa. Na memória colectiva Ayler é o mais radical de todos os músicos que emergiram na sequência das conquistas de Coleman, Coltrane, Dolphy, Rollins e Cecil Taylor. Entrou aos gritos no mundo da música, o mundo tapou os ouvidos e acabou muito mais discutido do que conhecido, deixando um pequeno legado obscurecido por mitos que esta edição vem iluminar.
1 - A sua música não era só violência. O mais radical dos músicos sempre disse gostar de tocar coisas que as pessoas pudessem cantarolar. Os seus improvisos frequentemente retomavam a melodia principal. Era um melodista por natureza, embora gostasse de espremer todas as nuances possíveis das suas composições e não usá-las como trampolim para a improvisação.
2 - Ayler sabia tocar segundo a tradição e passou anos a interpretar todo o género de temas comerciais e dançáveis. «Deves saber tocar direito antes de aprenderes a tocar errado», disse um dia a um saxofonista sueco.
3 - A espiritualidade de Ayler não era facilmente explicável. Por um lado, defendia que a essência estava na música, na sua interpretação, na sua revelação, na sua «glória», e entendia o comércio da música como uma violação dos santos princípios. Tal como Archie Shepp, dizia que o jazz devia tender para a sua matriz primária e revoltar-se contra a forma de arte ultra-sofisticada em que se tornou. A música era sagrada, tinha títulos em sua glória («The Truth is Marching In», «Spirits Rejoice», «Spiritual Unity», «Bells»), e Ayler era um veículo de verdade e beleza, um instrumento de libertação de energia. Por outro lado, esta visão de glória era assombrada por demónios: «Witches & Devils», «Ghosts». «My Name» é a excepção num percurso em que Ayler sempre se quis anular como criador, para se mostrar como um instrumento de Deus.
4 - Num estudo agora publicado, é definida a lista das suas influências: Louis Armstrong, a polifonia de Nova Orleães, a Igreja Baptista, Sidney Bechet, Lester Young, Johnny Hodges, os saxofonistas de Lionel Hampton, Freddie Webster, Charlie Parker, Sonny Rollins, a «New Thing». Ouvida a música, parecem pontos num mapa de estrelas de tamanho ridículo quando o levantamos da mesa e o colocámos entre os nossos olhos e o universo.
5 - A música de Ayler será sempre difícil e críptica por muito claras que sejam as suas intenções políticas e espirituais, por muito assimilados que sejam os avanços técnicos que conquistou para a arte do saxofone tenor. «Pegar na música de Albert Ayler e extrair dela um ‘método’ é algo difícil de imaginar», escreve Derek Bailey em Improvisation.
Ayler nasceu em Cleveland, em 1936, e apareceu morto em Nova Iorque em 1970. O seu corpo foi retirado do East River na manhã de 25 de Novembro. Tinha 34 anos. Na certidão de óbito foi escrito: «Morte por afogamento». As muitas testemunhas da sua existência são unânimes em concluir que Ayler viveu como se soubesse que ia morrer naquele dia. Formou a sua linguagem muito cedo, desenvolveu-a, teve oito anos para a gravar e não deixou sinais de grandes coisas que estava predestinado a fazer se não tivesse morrido tão novo.
A galeria de ilustres personagens que desfila pelo livro incluído em Holy Ghost coincide na generalidade das opiniões e histórias: quando Ayler tocava, a maioria da assistência saía da sala, tapava os ouvidos com as mãos ou insultava-o. Os músicos paravam de tocar. Os que ficavam viviam uma epifania.
Por exemplo, o poeta Amiri Baraka (então ainda usava o nome LeRoi Jones) conta uma ida com Ayler a um concerto de Coltrane (que tocava com Eric Dolphy, Cecil Taylor e Elvin Jones). A meio do concerto, Ayler pega no saxofone, sobe para o palco e começa a tocar. «Pegou no tenor e começou a abrir um buraco no tecto por onde os seus anjos pudessem descer». Baraka descreve um som assustador. «Um som sem referências. Uma coisa que estava a nascer naquele preciso instante, e da qual todos éramos testemunhas. Uma coisa que saía a voar do seu instrumento, gritando com 100 vezes mais força que aquelas que estavam à sua volta. Uma força que podíamos ouvir e sentir à medida que nos engolia. Os músicos no palco, alguns dos melhores do mundo, olhavam espantados. Quando ele terminou, a pergunta que pairava no ar era: ‘What the fuck was that?’ Seguiu-se uma explosão de aplausos. Albert desceu do palco, e quando o espectáculo terminou, Trane foi direito a ele e perguntou-lhe: ‘Que tipo de palheta usas?’ Depois dessa noite, Ayler tornou-se o mais falado rebelde da nova música.»
Nas 208 páginas deste livro são mais que 208 os adjectivos que tentam qualificar a música de Albert Ayler: «Ele rugia através do saxofone, desde o fundo da garganta, de modo a produzir efeitos brutos, guturais»; «um canto avassalador. Não tem a ver com notas, tem a ver com som e força». Na capa de Free Jazz, Ornette Coleman pôs um quadro de Pollock. Nas notas do seu primeiro disco, Albert usou as palavras de H. P. Lovecraft: «Eu sou o Caos».
Terminada a leitura, fica na memória a tentativa de Gary Peacock em resumir o impossível: «Convidamo-lo a vir a uma sessão, ele veio, tocou connosco e matou-me, fracturou-me - a qualidade do som, a sua falta de autocensura... Foi uma festa, uma celebração. Havia uma qualidade na sua maneira de tocar que nos permitia tocar a partir de um local que não podemos nomear, não podemos definir. A música de Ayler não se pode discutir. Está para lá do domínio verbal. Ayler costumava dizer sobre a sua música: ‘Não é sobre nada. Não queiram fazer dela música sobre alguma coisa’.»
Seguimos a biografia escrita por Val Wilmer em As Serious as Your Life (1977), adaptada e actualizada para esta edição. Ayler nasceu a 13 de Julho de 1936 em Cleveland, Ohio. Tinha um irmão seis anos mais novo, Donald, e uma irmã que morreu à nascença. A família habitava uma zona residencial com população de várias raças. A mãe, Myrtle, era extremamente devota e participava nas actividades religiosas da comunidade. O pai, Edward, tocava saxofone, violino e cantava, e começou a ensinar-lhe saxofone alto desde muito novo. Albert era obrigado a praticar diariamente e aos domingos fazia duetos com o pai na igreja. Há memória de que foi a concertos de Illinois Jacquet e ouvia em casa Lester Young, Wardell Gray, Charlie Parker e Freddie Webster. Gostava particularmente de Parker, o que lhe valeu a alcunha de «Little Bird».
Aos 10 anos começou a estudar na academia de música e tornou-se o principal solista da orquestra da escola. Simultaneamente, dedicou-se ao golfe, numa altura em que o desporto era um exclusivo dos brancos. Foi capitão da equipa da sua escola, ganhou vários troféus e muita fama em Cleveland.
Com o seu colega de escola Lloyd Pearson passou a correr os bares para ouvir todos os saxofonistas que por lá passavam, e formaram um grupo, Lloyd Pearson and the Counts of Rhythm. Um dia, Little Walter Jacobs, um virtuoso da harmónica que tinha acompanhado Muddy Waters, contratou-os para uma pequena digressão. O sonho tornou-se pela primeira vez realidade: viajar o dia inteiro, e à noite tocar. «Drinking heavy and playing hard» - Ayler rejubilava. Com Little Walter and His Jukes aprendeu uma lição para toda a vida: blues e ritmo.
A falta de dinheiro para continuar os estudos levou-o para a tropa com 22 anos. Esteve três anos no exército como músico numa banda militar. Seis a sete horas por dia tocava o que lhe mandavam (marchas militares, sucessos pop, valsas vianenses e jazz americano), o que servia para desenvolver as suas capacidades de ler música em pauta. O resto do tempo usava-o para explorar as suas próprias ideias musicais (e tocar com um baterista camarada de tropa, o insuspeito Harold Budd, mais tarde um dos paisagistas da escola Brian Eno), enquanto ouvia Something Else!!!!, de Ornette, Giant Steps, de Coltrane e Hard Driving Jazz, de Coltrane e Cecil Taylor. Foi enviado para Orleães, em França, em 1959, mas frequentemente arranjava maneira de ir a Paris espreitar os clubes de jazz. O seu apetite natural por marchas militares foi aguçado ainda mais pelas marchas do exército francês, especialmente pelo hino nacional francês, «La Marseillaise», a que chamava «La Mayonnaise». Na tropa, Ayler desenvolveu uma intensa curiosidade em ouvir música popular dos mais diversos países (em Ocean of Sound, David Toop cita Garbarek a contar que Ayler viajou para o Norte da Noruega e da Suécia à procura de música tradicional e canções xamânicas, cujos ecos se podem encontrar em vários dos seus hinos).
É nesta altura que passa a tocar saxofone tenor. «Com o tenor conseguem-se exprimir todos os sentimentos do ‘ghetto’. Com este instrumento consegue-se verdadeiramente gritar a verdade». O homem gentil, de boas maneiras, que toca jazz mainstream, bebop, rock’n’roll e blues como qualquer outro elemento da banda do exército, transforma-se, depois de ouvir Ornette, num músico que toca coisas estranhas e loucas que ninguém percebe. Ornette tinha sancionado tudo aquilo que Ayler sempre pretendeu fazer, mas Ayler imediatamente recusou ser um seguidor de Coleman. No desenvolvimento da sua própria linguagem, Ayler sempre manteve em perspectiva as conquistas de Taylor, Coltrane e Ornette, ao mesmo tempo que se distanciava delas. «Eu tenho o meu próprio som».
Edward Ayler, o pai carnal, irá ser testemunha, anos mais tarde, de um encontro do filho com o pai espiritual: «Coltrane queria que Al lhe mostrasse como se toca aquela ‘free music’».
É nesta altura, em França, que tudo se começa a complicar. Para mostrar o «seu som», Ayler aproveita todas as oportunidades para subir a um palco. Gentilmente pedia autorização para se juntar aos desprevenidos músicos franceses que estavam a dar o concerto, estes ficavam contentes pela oportunidade de tocarem com um músico negro norte-americano, mas rapidamente se apercebiam do insólito que tinham «comprado». Ayler até podia começar os temas normalmente, mas quando começava a solar, disparava para a mais absoluta estranheza. As reacções eram sempre as mesmas: assobios, pateadas, o público e os músicos a saírem da sala. O «free jazz», pelo menos teoricamente, já não era novo em França, mas o facto de Ayler insistir em interromper concertos normais para mostrar a sua música deu maus resultados. Qualquer que fosse o concerto onde ele aparecesse, estava sempre fora de contexto.
Aproveitando as licenças, visitou a Dinamarca e a Suécia, onde sentiu pela primeira vez respeito pelas suas experimentações. Não seria bem um grande respeito, mais uma interpretação livre do facto de os nórdicos não se manifestarem como os latinos, mas foi suficiente para ele planear lá regressar depois de sair do exército.
Foi desmobilizado em 1961, na Califórnia. De volta a Cleveland, as suas ideias revolucionárias foram também aqui totalmente rejeitadas. Lloyd Pearson convenceu-se de que ele nunca pegara no saxofone durante o serviço militar. E também não achava particular graça a Ayler introduzir espirituais no repertório. «Ele dizia-me que tinha encontrado a verdadeira música e a verdadeira religião, e tudo estava intimamente ligado a Deus», diz Pearson, para quem aquela música apenas soava a barulho. «Quando ele tocava uma balada recusava-se a tocar a linha melódica. As pessoas reclamavam mas ele não cedia».
Cansado da «mentalidade estúpida» dos americanos, decide ir para onde o compreendem: os países nórdicos. Sentia que só ali podia mostrar a sua música e talvez gravar. Na Finlândia bate à porta de uma loja de discos, cujo dono é um guitarrista chamado Herbert Katz, a quem pede uma oportunidade para tocar. Este leva-o a acompanhar o seu quinteto numa rádio de Helsínquia. É aí que faz, a 20 de Junho de 1962, a primeira gravação da sua carreira como músico de jazz (ver disco 1).
Pouco depois, já na Suécia, volta a gravar, agora e pela primeira vez como líder. A 25 de Outubro de 1962, perante uma audiência de 25 pessoas na Academia de Artes de Estocolmo, grava o álbum Something Different!!!!!!, para a Bird Notes. No mês seguinte, já em Copenhaga, na Dinamarca, Ayler encontra-se pela primeira vez com músicos que estão ao seu nível, entre os quais Cecil Taylor, a alma gémea que tanto procurava. Taylor e Ornette eram os novos deuses da religião fundada por Coltrane e Rollins. Baralhavam completamente as referências de uma vanguarda subitamente desorientada que corria atrás daquela estranha música chamando-lhe «Free Jazz», ou, com menor imaginação, «The New Thing». Taylor andava em digressão pela Europa com o baterista Sunny Murray e o saxofonista Jimmy Lyons. Ayler apresentou-se e Taylor acabou por o contratar. Acabaram por ir à televisão dinamarquesa, onde gravaram a sessão que agora se revela no disco 1, possivelmente a 16 de Novembro de 1962.
Dois meses depois foi convidado a ir a Copenhaga gravar uma emissão para a Rádio Dinamarquesa. Essas gravações, editadas em My Name is Albert Ayler, incluem um dos poucos registos que editou em vida de uma interpretação em soprano, «Bye Bye, Blackbird». Comparada esta gravação com a de Taylor, as diferenças são enormes. Em My Name... a explosão de algo novo vinha escondida sob uma secção rítmica europeia demasiado «normal». Contudo, eram sinais mais que suficientes de que algo estava para acontecer. «Naquela altura a música ainda não estava totalmente formada na minha mente. Eu tocava, mas a música surgia devagar. Não imediatamente, como agora acontece».
Acaba por regressar aos EUA, toca no Take Three, em Greenwich Village, com Jimmy Lyons, em alto, Henry Grimes, no contrabaixo, e Sunny Murray na bateria. Coltrane e Dolphy apareciam frequentemente para os ouvir, e Ayler começa a ser conhecido em Nova Iorque. Ao contrário, em Cleveland era-lhe cada vez mais difícil encontrar trabalho. Corria os bares, com o saxofone na mão e tentava vender na rua as 50 cópias de Something Different!!!!!! que trouxera da Suécia. Foi pai, em Cleveland, mas mudou-se para casa de uma tia em Nova Iorque em 1963.
Øle Vestergaard Jensen, o responsável pelo primeiro álbum de Ayler, conseguiu levá-lo a gravar aos estúdios da Atlantic. Spirits (mais tarde editado com o título de Witches and Devils) é a primeira gravação de Ayler em estúdio com músicos da sua estatura: Norman Howard, Henry Grimes, Earle Henderson e Sunny Murray. Na mesma sessão grava com o pianista Call Cobbs Jr. (mais Grimes e Murray) uma série de espirituais que acabariam por ser recusados por Bernard Stollman para a nova etiqueta de música de vanguarda que iria lançar, a ESP-Disk (acabariam por formar o álbum Goin’ Home editado na Europa pela Black Lion). Stollman não achou particular graça a ouvir espirituais tocados daquela maneira. Na altura, o gospel era um segredo bem guardado da música afro-americana, muito pouco divulgado fora dos locais de culto (apesar de toda a sua influência na soul). E Ayler percebeu que o que aquelas vozes faziam, aquele canto tornado grito a Deus, era igual ao da sua música. O que eles conseguiam com a voz ele conseguia com o tenor. Goin’ Home, o disco de gospel, é o mais «simples» de todos, reduzido ao fundamental das melodias.
É em 1964 que Ayler consegue estabilizar o trio com que vai para sempre deixar a sua marca na história da música: Gary Peacock no contrabaixo e Sunny Murray na bateria. Gravam a 14 de Junho no Cellar Café, em Nova Iorque. O registo acaba por ser editado nos álbuns Prophecy e Albert Smiles With Sunny, e é agora recuperado em todo o seu esplendor no final do disco 1 e início do disco 2.
Em Julho de 1964, Ayler faz com este trio as primeiras gravações para a ESP. «Naquela altura eu estava musicalmente fora deste mundo. Tinha que tocar esta música para as pessoas». O resultado foi Spiritual Unity, um dos mais importantes discos da história do jazz. Gravado a 10 de Julho, em Nova Iorque, é um disco perfeito em termos de coesão e interacção do grupo. Ayler tentou explicá-lo como um nível especial de concentração, uma unidade entre pessoas «espirituais». «Não estávamos simplesmente a tocar, estávamos a escutar-nos mutuamente».
Alguns dias depois grava a banda-sonora do filme New York Eye and Ear Control de Michael Snow, com o seu grupo, mais Don Cherry, John Tchicai e Roswell Rudd. Surge novo convite da Dinamarca. Ayler leva consigo Murray, Peacock (que estava em casa há 15 dias desempregado, quase sem comer) e Don Cherry. Grava em Setembro de 1964 no Club Montmartre, em Copenhaga (editado em The Copenhagen Tapes e agora no disco 2 de Holy Ghost). No mesmo mês vai para estúdio, em Copenhaga, e grava Ghosts. «Queria tocar algo, como o início de ‘Ghosts’, que as pessoas pudessem trautear. Melodias populares que as pessoas entendessem. Usava essas melodias como ponto de partida e depois essas melodias apareciam e desapareciam durante a peça.» Simples-denso-simples-denso.
Antes de regressarem aos EUA ainda é gravada e editada uma apresentação do grupo numa rádio holandesa (The Hilversum Session). Nos EUA, Ayler faz-se acompanhar por diferentes músicos, nomeadamente o irmão Donald, que tinha passado a tocar trompete, Charles Tyler, em sax alto, e o baixista Lewis Worrell, que tinha conhecido na tropa, e apenas manteve Murray na bateria. Dão um concerto a 1 de Maio de 1965 no Town Hall de Nova Iorque, que a ESP grava e edita com o título de Bells. «Conseguimos uma harmonia e um ritmo divinos».
A ESP também grava o concerto que os irmãos Ayler, Tyler, Grimes, Peacock, Murray e Call Cobbs deram a 23 de Setembro de 1965 na Judson Hall, de Nova Iorque, e edita-o como Spirits Rejoice. São as últimas gravações que faz com Gary Peacock, que na altura decidiu ir para o Japão estudar filosofia Zen. Seguem-se as edições de Sonny’s Time Now (gravado em Novembro desse ano), com a participação do poeta LeRoi Jones, que o editou na sua etiqueta Jihad (Jones/Baraka pretendia editar outro LP de Ayler e gravou um concerto deste com Pharoah Sanders num comício no Harlem, mas só agora essa gravação é pela primeira vez revelada no disco 6 de Holy Ghost). Amiri Baraka tem uma profunda admiração por ele e escreve em 1966: «Albert Ayler is the dynamite sound of the time». Fica siderado por aquela «música que vai além das notas para chegar ao som. Que tenta libertar-se de qualquer conceito para ser só emoção. Albert colocou todo o seu empenho na explosão do som. Onde Coltrane era lírico, Ayler era poderoso».
A ligação entre ambos incluiu ainda a publicação do texto «To Mr. Jones - I Had a Vision» na revista «The Cricket» (que Baraka fundou com Larry Neal e AB Spellman, e que esta caixa reproduz em fac-simile - é neste famoso texto que Ayler se diz tocado pela mão de Deus, dando como prova da marca divina a falta de pigmento no queixo que fazia com que a sua barbicha fosse branca), e a edição de Live at Slug’s Saloon (1 de Maio de 1966), desta vez com a inclusão do violinista Michel Sampson (um músico de formação clássica que o vai acompanhar até aos concertos do Village) e do baterista Ronald Shannon Jackson, que substitui Murray.
O Slug’s era na altura o poiso de Ayler e há muitos registos desse tempo, mas Holy Ghost mostra pela primeira vez Ayler naquele local a tocar como convidado de outra banda, no caso o quinteto de Burton Greene (disco 2). Outra preciosidade dessa altura (discos 3 e 4) são os concertos deste quinteto de Ayler a 16 e 17 de Abril de 1966 no La Cave, em Cleveland.
A cronologia segue com o álbum Albert Ayler Live in Europe 1964 - 1966, gravado a 3 de Setembro de 1964 no Cafe Montmartre, em Copenhaga, e a 3 de Novembro de 1966 em Berlim, perante a maior assistência de toda a sua carreira. A digressão passa a 7 de Novembro por Lorrach, Alemanha (álbum Lorrach/Paris 1966), a 8 por Roterdão, na Holanda (disco 5), e a 13 pelo Festival de Jazz de Paris (álbum Lorrach/Paris 1966). Daniel Caux lembra esse dia: «Um vento forte de poética loucura começou a varrer a sala. Um vibrato de larga amplitude. Um tocar que inclui simultaneamente diferentes notas, guinchos, gritos, assobios e súbitas melodias parecidas com marchas ou canções de crianças. O chão sob as nossas cadeiras parecia tremer».
Outra série importante de concertos é realizada em Nova Iorque e marca o início do contrato com a Impulse! As gravações acabam reunidas em Live in Greenwich Village: The Complete Impulse Recordings (inclui Albert Ayler in Greenwich Village e The Village Concerts), e abarca as datas de 28 de Março de 1965, no Village Gate, 18 de Dezembro de 1966 no Village Vanguard, e 26 de Fevereiro de 1967 no Village Theatre. Nestas gravações Ayler acolhe na sua banda mais um músico de formação clássica, o violoncelista Joel Freedman. E é a última vez que grava com Henry Grimes, que desaparece, para só ser «encontrado» recentemente a viver na mais absoluta miséria e na ressaca de inúmeros tratamentos psiquiátricos.
Val Wilmer observa o efeito da inclusão de instrumentos clássicos na sua música: «Quando ele se referia a tocar um ‘grito mudo’ isso era incompreensível e parecia vagamente ridículo para todos os que estavam fora do círculo de músicos que o acompanhavam, mas em algumas das suas últimas gravações, quando a sua técnica excepcional lhe permitiu ‘inventar’ um novo alcance para o saxofone, ele aliava o violino, o violoncelo e o contrabaixo, tocados no registo mais alto - fazendo mesmo o saxofone soar como um instrumento de cordas - e cria um efeito de canto no limite da dor - ou grito - com uma espécie de silêncio no seu âmago».
O disco 6 é o mais precioso de todo o conjunto. Começa com a ida do quinteto de Ayler a 30 de Junho e 1 de Julho de 1967 ao festival de Jazz de Newport. O percussionista Milford Graves recorda o evento como algo muito especial: chovia, o público começou a sair, o grupo entrou em palco e deu um concerto tão memorável que toda a gente regressou sem se importar com a chuva; tocaram o tema «Japan» que condensa toda uma longa tradição de etnomusicologia cultivada por Coltrane e Ayler; e porque este é um dos primeiros registos de Albert a cantar.
Parece um ensaio para o que iria acontecer dias depois. John Coltrane morre deixando como último desejo que Ayler e Ornette tocassem no seu funeral. A 21 de Julho de 1967, Albert Ayler entra na Igreja Luterana de São Pedro em Nova Iorque para cumprir a vontade. Toda a sua vida usou como matéria-prima os espirituais, os cantos fúnebres e as marchas, formou grupos para «celebrar colectivamente os espíritos», com Coltrane, Sun Ra, Pharoah Sanders tornou-se «aquele-que-procura-Deus», não um deus físico, mas um deus místico, pura energia. Os irmãos Ayler tocam um «medley» que inclui «Our Prayer» e «The Truth is Marching In», acompanhados por Richard Davis, no contrabaixo, e Milford Graves, na bateria. Em nome do Pai, Ayler canta para ele pela última vez. Dentro da igreja, numa gravação que tem tanto de má como de emotiva, a palavra da salvação é um grito avassalador.
O tema seguinte, também é igualmente simbólico - o encontro do Filho com o Espírito Santo: Pharoah e Albert no já referido comício do Harlem.
A transição de ano é assinalada pelas gravações nos estúdios Capitol, em Nova Iorque, de Love Cry, para a Impulse! Depois a vida e a música de Ayler sofrem uma marcante viragem com a entrada em cena de Mary Parks (que usava o nome artístico de Mary Maria). Ela tocava piano e harpa e escrevia letras de canções. Ayler convenceu-a a tocar também sax soprano. Mary começa a tratar de todos os assuntos de trabalho de Albert e passam a tocar juntos todos os dias, incluindo nos concertos. Foi graças a Mary Maria que Ayler começou a cantar.
Em Setembro de 1968, grava New Grass, o mais controverso de todos os seus álbuns. Inclui um grupo gospel e o próprio Ayler a cantar. Tem uma batida de rock e elementos de rhythm-and-blues. Novamente Ayler é acusado de desrespeitar as tradições. Baraka escreve no «The Cricket»: «Brother Ayler got lost». «Parecia que Albert tinha abandonado os raios e trovões para fazer algo ‘comercial’. Ainda me pergunto o que é que teria acontecido». Para ajudar à compreensão, Holy Ghost revela (no disco 6) algumas das demos do álbum gravadas por Ayler.
O início do disco 7 é um parêntesis necessário para se compreender o final desta história. Apresenta Donald Ayler à frente de um sexteto em Janeiro de 1969 no Town Hall de Nova Iorque, tendo Albert como convidado. A relação entre os irmãos estava a passar dias difíceis pois Donald não se enquadrava nos projectos musicais de Albert. Começou a fraquejar psicologicamente e, apesar de algumas tentativas para começar uma carreira própria, afundou-se com problemas mentais. Esta é a última vez que tocam juntos.
Na sequência de New Grass, o produtor Bob Thiele quis que, para o álbum seguinte, Albert tocasse com um grupo de jovens músicos de rock, mas este acabou por tocar com o seu grupo, cedendo apenas na inclusão do guitarrista dos Canned Heat, Henry Vestine, que tinha manifestado desejo de gravar com ele. O resultado foram os álbuns Music is the Healing Force of the Universe e The Last Album, gravados em Agosto de 1969 nos estúdios Plaza Sound, em Nova Iorque - era a última vez na vida que gravava nos Estados Unidos. «Na vida é preciso fazer mudanças, morrer e nascer novamente, artisticamente falando. É um processo de rejuvenescimento», justificou Ayler.
A crítica não o poupou: «Albert Ayler anda a fazer álbuns conceptuais quase-cósmicos abarrotados com ineptos roubos ao rock e interpretações descuidadas», escrevia Lester Bangs na «Creem».
Em Julho de 1970 vai para França e grava a 25 e 27 dois históricos concertos em Saint-Paul-de-Vence. A diferença entre as dificuldades que ali viveu no início da carreira e este momento são radicais. Maio de 68 tinha mudado tudo, pelo que desta vez foi recebido como um herói. Aimé Maeght, negociante de arte, dona da Galeria Maeght e da Fundação com o mesmo nome, contrata Daniel Caux para organizar uma série de concertos no âmbito de uma exposição de arte norte-americana que ali decorria. Os concertos, que pretendem dar uma ideia das novas direcções da música norte-americana são de Ayler, Sun Ra (a primeira apresentação da Arkestra fora dos Estados Unidos), La Monte Young e Terry Riley. É um evento memorável, transmitido pela rádio, televisão e registado em filme e fotos. Mas as gravações são editadas só depois da sua morte nos álbuns Nuits de la Fondation Maeght e Albert Ayler Quintet 1970 (este apenas na editora italiana Blu Jazz). Holy Ghost completa o retrato com a edição de um concerto informal num clube junto ao local onde a banda ficou hospedada.
Caux lembra que foi durante a estadia em Saint-Paul-de-Vence que Ayler recebeu a notícia de que o seu irmão Donald tinha sido internado num hospital psiquiátrico. Sentiu-se culpado e dizia que não tinha tomado conta dele. Outras más notícias chegaram a França, principalmente a de que a Impulse! tinha deixado de estar interessada nos seus serviços. Olhando à volta era fácil perceber que os músicos que o acompanhavam estavam muito longe da qualidade dos seus «apóstolos» dos tempos áureos. Aos 34 anos começa a convencer-se de que estava a perder tudo o que tinha conquistado.
Em Novembro de 1970, de regresso aos EUA, Ayler desapareceu de casa durante 20 dias. Mary Maria chamou a polícia, por temer pela segurança de Ayler, mas nunca foi muito explícita nas justificações do seu medo. Certo é que o corpo foi retirado do East River na manhã de 25 de Novembro de 1970 e foi identificado pelo pianista Call Cobbs Jr. e pelo pai. Não foi realizada autópsia. O obituário na «Down Beat» dizia que as suas interpretações tinham muito pouco a ver com qualquer outro jazz, passado ou presente.
Na passada quinta-feira cumpriram-se 34 anos desde que Albert Ayler morreu com 34 anos. Ele teria gostado de ver significados nesta coincidência. E teria agradecido à Revenant ter espalhado pelo mundo «spirit boxes» em sua memória. A dúvida está na forma como teria preferido que o recordássemos - a frase do primeiro disco, «eu sou o Caos», ou uma resposta no meio de uma entrevista: «Albert, o que costumas fazer quando não estás a tocar música?» «Gosto de me sentar e olhar para a minha mulher».
Foi enterrado em Cleveland com uma lápide onde está escrito que serviu no Vietname - lugar onde nunca esteve. Quando muito, podiam ter escrito «Apocalypse Now».»
Texto de Rui Tentúgal
Bem, caríssimos e fiéis leitores, acho que já sabem o que eu quero receber neste Natal.