Nada dura para sempre... Nothing lasts forever (and we both know hearts can change), já dizia o mítico Axl Rose, numa xaroposa e saudosa canção dos early 90's. E as férias, mais que o resto, duram sempre menos do que o que realmente deveria acontecer. Tudo passa tão depressa... Faça-se uma tentativa breve de definição de felicidade. Há os banhos de sol e os mergulhos no mar, martini ao fim do dia e caipirinha debaixo da lua, reencontro de amizades meio perdidas, a comida tão boa da mamã, uns toques na bola [interrompidos pelo excesso de zelo da polícia marítima] e a noite que termina no Bib'Ofir... O que nos sobra? Fónix, temos de voltar a acordar cedo para ir trabalhar...
Houve música, mas pouca. Um americano, jovem e "conservador", foi quem mais rodou durante esta semana. No disco "Timeless Tales (for Changing Times)" Joshua Redman viaja no tempo, entre os eternos standards de sempre e modernos standards pop. E a viagem é gratificante, tanto na candura cristalina dos clássicos (Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Hammerstein & Rodgers), como no tratamento aplicado à beleza urgente da música popular (Stevie Wonder, Bob Dylan, The Beatles e Prince). Brad Meldhau, Larry Grenadier, Brian Blade e Redman contam histórias que já todos sabemos de cor. Mas é sempre tão bom ouvi-las de novo.
E numa altura em que os festivais de jazz pululam como fungos comestíveis, a Figueira da Foz recebe mais um. No entanto, um festival que acolhe os quartetos de Charles Lloyd e Frank Morgan não pode ser só considerado "mais um". Lloyd e Morgan continuam a fazer-nos acreditar na música. Concertos imperdíveis, pois. Dois discos, duas recomendações:
HYPERION WITH HIGGINS
Charles Lloyd / John Abercrombie / Brad Meldhau / Larry Grenadier / Billy Higgins Um trupe magnífica num disco de grande qualidade.
LISTEN TO THE DAWN
Frank Morgan / Kenny Burrell / Ron Carter / Grady Tate Uma deliciosa ternura - e se alguém não se emocionar ao ouvir este disco é porque a certa altura da vida substituiu a alma por uma pedra de gelo.
posted by Nuno Catarino @ 22:45
Novas Devoções
Já estava na altura de fazer mudanças cá por casa. Para além da variação cromática a nível do design, faz-se uma actualização de devoções. Juntam-se músicos, actrizes, realizadores e escritores, entre artistas diversos. Aleatoriamente, desta vez sobem ao altar: Albert Ayler, Aki Kaurismaki, Cristiano Ronaldo, Carla Bley, Vergílio Ferreira, Federico Fellini, Chico Buarque, Brigitte Bardot, Francis Bacon, Garrincha, John Zorn, Rosanna Arquette, Fiodor Dostoievski e Keith Jarrett. Tudo gente de quem gostamos com especial fervor. Para ver as caras é favor consultar a barra ali ao lado direito.
posted by Nuno Catarino @ 22:12
Faster Than Light (The Story of a Non Scientific Speculation)
Depois da surpresa prateada do ciclismo, Porugal recebe nova medalha, desta vez vinda de uma das mais importantes e mediáticas provas olímpicas. Obrigado Francis Obikwelu.
posted by Nuno Catarino @ 22:02
2004/08/20
Jazz nos Algarves, Pt. IV
O jazz anda a sul e os eventos jazzalgarvios não param... O Jazz'Abrir decorre em Aljezur e promete três dias de bons concertos.
20 de Agosto / sexta-feira Groove Station Quartet
Quitento de Patrícia Vasconcelos
Agostin Portalo Trio
21 de Agosto / sábado Wishfull Thinking Quintet
Elisilimitada
Nuno Ferreira Trio
22 de Agosto / domingo In-Out Quartet
Quarteto de Rita Martins
Ficções
posted by Nuno Catarino @ 19:04
Jazz nos Algarves, Pt. III
No dia 4 de Agosto de 2002 a Sala Polivalente da Gulbenkian recebeu um espectáculo que reuniu dois dos maiores músicos nacionais, ambos contrabaixistas, num belo duo - Carlos Barretto e Carlos Bica fizeram um show de grande qualidade. No próximo fim de semana, Tavira vai acolher um upgrade a esta formação: Zé Eduardo junta-se ao duo e nasce o projecto "Contra3aixos". Será no próximo domingo. Ide a banhos e, se vos der, aproveitai este inusitado mas seguramente surpreendente trio contrabaixístico.
posted by Nuno Catarino @ 01:26
2004/08/18
Here's Looking At You, Kid
O título deste post, antes de querer fazer um momento mymoleskine em imitação barata, vem apenas lembrar o refrão de uma das audições do dia de hoje: a banda sonora de um dos mais belos filmes românticos dos anos 90, "Velvet Goldmine", que acompanha a grandiosidade da película. E, entre temas - originais e versões - de Roxy Music, T-Rex, Lou Reed, Brian Eno (só faltava mesmo Bowie...), o alinhamento é perfeito. Um dos fotogramas:
Oh, I was moved by your screen dream
Celluloid pictures living
Your death could not kill my love for you
Take two people romantic
Smoky nightclub situation
Your cigarette traces a ladder
Here's looking at you kid
Celebrate years
Here's looking at you kid
Wipe away tears
Long time since we're together
Now I hope it's forever
Enquanto não se sabe o que é feito do Esposende Dance Fest, um evento que prometia ser o mais interessante evento de música electrónica deste verão (Suicide e Kruder & Dorfmeister incluídos no programa), foi anunciado um novo festival para a ilha da Madeira.
Ao que parece, o Offshore (designação oficial) pretende ser um festival "multimedia" - whatever that means - com uma forte componente musical. Os nomes participantes são do melhor do mundo das electrónicas: Vladislav Delay (com produção visual de Lillevan dos Rechenzentrum) e Burnt Friedman, acompanhado de Jaki Liebezeit e Joseph Suchy. O Funchal vai receber multimedia em doses fartas nos dias 23, 24 e 25 de Setembro.
E já que se fala deles, fica a dica de alguns dos seus álbuns essenciais...
"Future Days" [1973], dos Can (onde se notabilizou Jaki Liebzeit), é um clássico de uma banda muitas décadas à frente do seu tempo. O disco dos Rechenzentrum, "The John Peel Session" [2001], é uma passeio espacial pela descoberta de ritmos novos. "Just Landed" [2000] de Burnt Friedman (& The Nu Dub Players) é uma delícia. E o mais recente, "Demon(n)tracks" [2004] de Vladislav Delay, debita batidas desalinhadas com gosto. Experimentalismo electrónico a rodos.
posted by Nuno Catarino @ 19:34
2004/08/13
Alquimia Submersa
Há palavras que têm vontade própria, que nos fogem e procuram outros espaços. A partir de agora podem encontrar algumas palavras deste vosso blogger nas páginas do Jornal de Vila Franca numa coluna denominada "Alquimia Submersa". Na verdade, quem foi convidado para lá escrever foi o Paulo Ferreira (escritor a sério, autor das Cartas a Mónica), mas ele simpaticamente fez um convite que não se pôde recusar - alternar com ele em crónicas quinzenais. Os resultados desta colaboração serão publicados num blog que irá servir como depósito das crónicas do jornal: http://alquimiasubmersa.blogspot.com - para quem não tenha acesso ao jornal, embora os textos sejam publicados no blog com um certo atraso em relação à edição em papel. Quem tenha disponibilidade que se deixe submergir nesta estranha forma de alquimia.
posted by Nuno Catarino @ 22:32
2004/08/12
Jazz nos Algarves, Pt. II
3º Workshop Internacional "Tavira em Jazz 2004" 06/10 Setembro 2004
"No seguimento do que já vem sendo uma tradição, o 3º Workshop Internacional “Tavira em Jazz 2004” é a continuação do trabalho iniciado em 2001. Pretende-se que, tanto profissionais como estudantes de música, trabalhem com excelentes instrumentistas americanos com vasta experiência em pequenas e grandes formações de Jazz.
O objectivo último é fomentar a interacção entre alunos e professores, durante uma semana de trabalho intenso e frutífero, tendo como fundo Tavira, a pérola do Algarve, o seu clima, as suas gentes e o seu mar (...)"
John Swana – Trompete, Teoria, Combo, Big Band, Ensaios de Secção
Greg Tardy – Sax, Teoria, Combo, Big Band, Ensaios de Secção
Alan Ferber – Trombone, Teoria, Combo, Big Band, Ensaios de Secção
Jonathan Kreisberg – Guitarra, Teoria, Combo, Secção Rítmica
Aaron Goldberg – Piano, Teoria, Combo, Secção Rítmica
Matt Penman – Contrabaixo, Teoria, Combo, Secção Rítmica
Mark Ferber – Bateria, Teoria, Combo, Secção Rítmica
Francisco Blanco “Latino” – Sax, Teoria, Combo, (principiantes)
Zé Eduardo – Coordenação Pedagógica
Artista convidado:
Jack Walrath - Arranjos/Composição avançada, Combo avançado, Big Band
15 de Agosto, Domingo
Músicos do Workshop / Big Band
New Orleans Jazz Band
Em simultâneo, no Stevie Ray's Blues Jazz Bar decorrem jam sessions abertas a público e músicos.
posted by Nuno Catarino @ 00:34
2004/08/11
A Forma do Jazz em Agosto
Já é costume. Por alturas de Agosto este blog hiberna. Ainda não se descobriu a razão destas ausências internetísticas prolongadas por alturas do mês número oito. Talvez uma razão plausível tenha que ver com a tendência para mudar de casa neste mês - coisa que já aconteceu em 2003 e este ano se repetiu - e até o professor se livrou das angústias para tratar de mudanças (parabéns pelo blog, Fernando, e de caminho boas férias!). Ou talvez seja só da praia, do sol, do mar. Talvez seja da quantidade de miúdas giras em bikini, que nesta época aumenta exponencialmente. Ou então é simplesmente da música, dos espectáculos, do jazz… e o Jazz em Agosto deste ano foi soberbo.
Ok, talvez isto seja só entusiasmo de criança que acaba de receber um novo presente e ainda está fascinado com o embrulho. Ou então é uma fome de prazer auditivo, um enorme e acumulado desejo que é saciado de noite no anfiteatro ao ar livre. Tudo começou com a NOW Orchestra dirigida por George Lewis, que abriu as sonoridades desprendidas de preconceito no ar verde da Gulbenkian.
Na noite de quinta feira um grupo de japoneses denominado Otomo Yoshihide New Jazz Quintet teve a delicadeza de mostrar que a beleza é um coisa rara, mas pode ser partilhada de modo universal. A presença de Mats Gustafsson foi poderosa, mas a restante banda não se encolheu. O saxofone de Kenta Tsugami entrou tímido, mas libertou-se do medo e cresceu com a noite e não ficou mal ao lado do enorme Gustafsson. A bateria de Yoshigaki foi sempre muito activa, o contrabaixo Mizutani mostrou serviço e a guitarra do líder Otomo criava espaços inimitáveis – de momentos de carinho até aos (múltiplos) registos “matança de porco” foi sempre único, imprevisível, genial. O repertório foi irrepreensível, passou por lá gente como Charlie Haden (“Song for Che”), Eric Dolphy (“Hat and Beard”) e Jim O’Rourke – e a versão de “Eureka”, ternurenta e quente, foi o cume dessa montanha.
Quando o grupo de Franz Hautzinger entra em palco na noite de sábado há uma pergunta óbvia que se coloca: o arrumador conseguiu arranjar lugar para a nave e, se sim, teve direito a gorja em cêntimos de euro ou cêntimos da unidade monetária do planeta de origem dos músicos? O tipo do sampler tem o cabelo vermelho, o guitarrista Frankenstein não para de andar sempre de um lado para o outro, o baixista toca enquanto combate espasmos absurdos, o baterista de vestimenta camuflada ataca a bateria com uma fúria terrível – do grupo, apenas o líder e o homem do computador portátil revelam aspecto de possuidores de sanidade mental efectiva. Mas o concerto começa e isto perde importância (isso agora não interessa nada). À medida que os temas vão passando aumenta a convivência dos instrumentos e a música sai fluida. O génio de Christian Fennesz (ao laptop) fornece os ambientes, a guitarra de Ritter abre a melodia, o baixo imparável de Luc Ex provoca a bateria e Alexdrum responde ao mesmo nível, o sampler de Hildegger interage e lá entra Franz Hautzinger para pacificar os amigos - o trompete quatertone cobre a música da banda como as estrelas a noite de verão e é então que percebemos que a fusão é magnífica. Lá no inferno, Miles deve ter esboçado um sorriso.
posted by Nuno Catarino @ 00:08
2004/08/04
Concerto for NOW
E então lá fomos à Gulbenkian... E que grande concerto, o da NOW Orchestra!... O talento individual trabalha pelo colectivo e ontem o público do grande auditório do edifício da Avenida de Berna viu passar um furação imenso. Agora talvez lá voltemos para Otomo Yoshihide c/ Mats Gustafsson e Franz Hautzinger, sexta e sábado respectivamente. Mais "música improvisada pífia", por favor!
posted by Nuno Catarino @ 22:08
2004/08/03
Changes
Aos caros leitores regulares (se é que existe algum) que por aqui têm passado, as minhas desculpas. Esta prolongada ausência de actividade blogueira deve-se à mudança de instalações habitacionais, de momento vive-se um amargo período entre a desistência do amável serviço netcabo da antiga moradia e a instalação do jovial adsl na nova casa. Confirma-se, não se vive mal no Beco dos Surradores, entre a Praça da Figueira e o Castelo, mas o serviço da adorável PT Comunicações tarde em efectivar-se.
Por enquanto navega-se mui irregularmente entre cybercafés hiper-carotes, sem tempo ou espaço para devaneios inúteis e observações improvisadas. Acumula-se assim uma torrente de pensamentos que pedem para ser partilhados. Perde-se a oportunidade de referir atempadamente a descoberta do quarteto do guitarrista Vasco Agostinho na cave fumarenta do Hot Club. Falha-se a recomendação para uma passagem pelas Catacumbas onde numa noite de jam session se possa apanhar alguma coisa mágica como uma interpretação do clássico "Impressions" livre de comodismos. Tardiamente dizemos que a encenação d'"A Família Schroffenstein" no Teatro da Cornucópia é de uma nobreza grande - como já é vulgar com Luís Miguel Cintra. E que o filme de Tom Barman, "Any Way the Wind Blows", é um retrato vivo, necessário e terno de uma certa pós-modernidade europeia (quer-se com isto dizer: ide ver).
Mas por aqui trata-se é de jazz e esta semana não se pode ficar em casa: o Jazz em Agosto dura pouquinhos dias (só até domingo) e temos é de aproveitar. Os concertos são quase todos imperdíveis, mas o orçamento familiar não permite que se faça o pleno. Refiram-se apenas algumas recomendações mínimas: o mago da electrónica Fennesz a acompanhar Franz Hautzinger Regenorchester XI (no sábado), o quinteto de novo jazz japonês de Otomo Yoshihide com a participação de Mats Gustafsson (na sexta feira), o free jazz da The Thing liderada por Gustafsson, o solo de Gunter "Baby" Sommer, entre outros... Vou tentar resistir a muitos concertos, talvez me encontrem (talvez mais no fim de semana) para os lados da Gulbenkian.
Ah, e hoje é NOW Orchestra... até já!
posted by Nuno Catarino @ 20:19