Sim, eu fui ao Rock In Rio. À primeira vista não passa de mais um festival, igual a tantos outros (o aspecto de anfiteatro lembra Paredes de Coura) com a excepção de haver um número exagerado de packs pais+filhos. Depois de passar por inúmeras barreiras de segurança, que tornam o recinto mais seguro que a Sala Oval da Casa Branca, ainda cheguei a tempo de ver a energia samba/rock do ministro Gil. Este concerto só pecou por acontecer demasiado cedo - grande parte do povo ainda não tinha bebido os litros suficientes para entrar na festa. A seguir fui ao hamburguer - o pior momento da minha passagem pelo RIR-Lx. É pena que o grande génio de Roberto Medina não tenha alcance para mais que para vender um festival como evento de solidariedade, quando afinal só 2% das receitas se destina ao "projecto social" - os outros 98% concerteza que terão como destino os "projectos sociais" das suas casas com piscina, lofts em NY, etc. Custava muito pôr nas barracas de "comes e bebes" mais do que três (simpáticas) meninas? Ora vejamos: se às esperadas 600.000 pessoas desse a fome ao mesmo tempo, como fariam as três zelosas funcionárias da barraca hamburguers+cachorros? Mas depois houve música. Lá pelo meio aparaceram uns Jet, de rock batido e esbatido, cuja única função terá sido inspirar um título de humor fino para este post - música que só dava vontade de adormecer. Ainda tocaram uma música que pôs todos aos pulos, a banda sonora de um anúncio de Vodafone - o melhor momento do concerto. Depois houve Ben Harper, um moço em quem já não punha os ouvidos há algum tempo, mas que afinal ainda se mantém em forma. Desfilou boas músicas, tendo em "Burn One Down" o momento mais elevado da noite. Acabado este concerto, o estômago aconchegou-se com um caldo verde industrial - mas que na altura soube a filet mignon. O mestre Peter Gabriel entrou em palco já a noite ia avançada. Ainda resisti a alguns hinos, mas depois fui obrigado à retirada - a companhia é que impunha as leis e a sua resistência ao sono era ainda menor que o meu poder negocial. Conclusão final: o festival é um bom festival... mas por favor não o vendam como o primeiro ou o maior festival que se fez em Portugal - nós não somos parvos.
posted by Nuno Catarino @ 23:15
2004/05/29
Eu... Vou (Obrigam-me!)
Eu tentei. Durante vários meses andei a falar mal do Ró-Quim-Rio, a dizer que não ia. Passei mesmo muitos meses a evitar várias marcas para não correr o risco de ganhar bilhetes em nenhum passatempo. Mas nem assim consegui fugir... Sou mesmo obrigado a ir ao RIR-Lx. É que uma pessoa amiga ganhou dois bilhetes e convidou-me e, como há pessoas cuja companhia ultrapassa o motivo do convívio, tenho mesmo de ir. O que vale é que vamos no dia em que o cartaz não envergonha: Gilberto Gil (o ministro cantor), Ben Harper (o Lenny Kravitz das miúdas alternativas) e Peter Gabriel (o vocalista dos Genesis no tempo em que ainda eram uma banda respeitável) - estes artistas são do melhor que vai ao festival de Chelas. Por isso, como qualquer bom pregador, aconselho: "façam o que eu vos digo, não façam o que eu faço".
[Cortesia de Diogo Marques]
posted by Nuno Catarino @ 12:30
Os Livros Em Voltas (No Parque)
A semanita de férias ameaça terminar e regresso a Lisboa. Ainda a tempo de vagabundear pela Feira do Livro, na esperança de encher a casa de pechinchas literárias e outras imperdibilidades.
posted by Nuno Catarino @ 01:55
Campeões da Europa
Parabéns, FC Porto!
Abraços a todos os amigos que vibraram com este triunfo. Um grande abraço em especial para Nuno "Marinhez" Leal, Miguel Adolfo Martins, Márcio "Flores" Furtado, Tiago Mogas, e... para o meu pai, claro!
posted by Nuno Catarino @ 01:12
2004/05/26
Easy Living
Em tempo de dolce farniente, o regresso à deusa da voz. Uma colectânea repartida por dois discos, aqui em repetidas audições.
Estamos de férias. Esta semana será passada pelo norte do país - por estes dias a cidade de Braga alberga-me - por isso a regularidade do bloganço será mais diminuta.
Entretanto, ontem colmatei mais uma (enorme) falha cinéfila: finalmente vi o "Caro Diario" de Nanni Moretti. A simplicidade da história que se conta é ao mesmo tempo tão terna que o filme nos entra pelos olhos com uma beleza desmesurada. O excerto do Concerto de Colónia de Keith Jarret amplia a graça do filme e só dá pena não ser incluído o concerto na íntegra [e se é mesmo verdade que o velho Jarrett vai em Outubro à Casa da Música eu vou-me começar já a hipotecar para pagar os vinte contos do bilhete]. A presença de mestre Cohen apenas cauciona a grandiosidade do filme, um dos marcos da cinematografia da década passada, definitivamente.
Já agora, só um aviso: Fernando, temos um almoço para combinar [e quero experimentar o grill :)]!
posted by Nuno Catarino @ 17:13
2004/05/23
Let the Good Times Roll
Afinal, dúvidas ultrapassadas, sempre deu para ir ao Jazz do Senhor de Matosinhos. O primeiro concerto foi surpreendente: "The Three Guitars" junta os grandes John Abercrombie e Larry Coryell com a novata (e previamente desconhecida) Badi Assad. À primeira vista pensa-se que, com tanta guitarra, se acaba por abafar os sons umas das outras. Mas tal não acontece, há espaço para todos. Quando Abercrombie ou Coryell tomam a dianteira, os outros remetem-se ao papel secundário de acompanhantes e tudo funciona bem. A jovem brasileira Badi troca muitas vezes a guitarra para se dedicar a improvisações impossíveis - com instrumentos esquisitos, com a voz, em scat ou a sussurrar... A forma como a brasileira se entrega roubou mesmo o protagonismo aos velhos mestres. A técnica ninguém lhes tira e muito disso também lá houve. Mas com o encore "Corcovado", a guitarrista levou-nos a viajar para a Bahia, para praias onde se anda com bikinis pequeninos, e deu-nos vontade de lhe procurarmos as pegadas que ela deixou na areia (afinal ela já tem uma carreira com vários discos). E ficamos também com vontade de ver cada membro deste trio em concerto individual, para podermos apreciar em pormenor as virtudes próprias.
Na segunda parte houve o blues fogoso de Shemekia Copeland. A filha de Johnny Copeland liderou uma banda de blues eléctrico, ou blues-rock, não fugindo muito do estilo tal como definido por Stevie Ray Vaughan. Aos acordes típicos do género, seguidos de solos mais ou menos previsíveis da guitarra Flying V de Arthur Neilson, Shemekia deu a sua voz poderosa, que arrasou. Quando saiu do palco e se passeou pelo público, exibindo a voz sem necessidade de amplificação, foi a apoteose. A noite terminou com o blues-standard "Let the Good Times Roll". Para o ano voltamos a Matosinhos.
posted by Nuno Catarino @ 01:42
2004/05/20
Matozoo Jazz
Aí está mais um festival de jazz e, ao que parece, cada ano os festivais estão cada vez melhores. O Matosinhos Em Jazz, que decorre até sábado, recebe hoje a presença do grande Toots Thielemans (a acompanhar o Ivan Paduart Trio). Amanhã é dia de Jacinta soltar a voz, seguida do quinteto de Rufus Reid. Sábado é ainda melhor: é a vez de entrarem em cena "The Three Guitars", tocadas pelos dedos mágicos de Larry Coryell, Badi Assad & John Abercrombie. E para o fim da noite fica a grande Shemekia Copeland, dona de uma portentosa voz onde navegam os blues. No próximo sábado talvez me vejam por Matosinhos...
posted by Nuno Catarino @ 22:41
No Tempo Antes do Tempo
A discussão mais actual do nosso tempo tem o dedo do nosso comediante favorito, o Dr. PSL, que pôs toda a gente a discutir a forma correcta de se escrever "bem-vindo". A prova de que este blog está à frente do seu tempo é que há quase um ano que por aqui já fizemos essa interrogação - precisamente na inauguração desta casa a 19 de Junho. Mas, falando a sério sobre o tema, concordo com a visão da Vânia, acho mesmo que a evolução da língua (principalmente via adopção directa de anglicanismos) é inevitável [stress é stress, não é stresse; dossier é dossier, não é dossiê]. Por isso, deixem a língua portuguesa viver e não a queiram transformar numa espécie de "Português do Brasil em Amargo" - pelas adaptações idiotas, mas sem a doçura. Quanto à dúvida, essa continua.
posted by Nuno Catarino @ 20:17
2004/05/19
Elvin Jones [1927-2004]
Faleceu ontem Elvin Jones. Foi o baterista de um dos maiores e mais sólidos quartetos da história do jazz, o quarteto de John Coltrane (1960-1965). Com Coltrane (sax), Jimmy Garrison (ctb) e McCoy Tyner (p) fez alguma da mais criativa e inovadora música, acompanhou de perto a evolução do jazz. A participação em algumas das mais geniais obras gravadas do século XX garantiu-lhe presença permanente na nossa memória colectiva.
João Moreira dos Santos, do blog Jazz no País do Improviso, escreveu:
"Uma nota para dizer que ontem se fez história na curta história dos blogs em Portugal. É que pela primeira vez um blog foi reconhecido como meio de comunicação social pela organização de um espectáculo, merecendo dois bilhetes para assistir ao mesmo." (Ler artigo completo aqui.)
Foi aberto o precedente: pela primeira vez um blog foi equiparado a orgão de comunicação social. Ora, se isto é mesmo verdade, A Forma do Jazz vem desde já reinvindicar direitos iguais - também queremos bilhetes para os concertos do CCB (e Culturgest e Gulbenkian e festivais diversos). Algumas vozes críticas podem contariar as nossas vontades dizendo que este não é um blog purista de jazz - é verdade, aqui falam-se de assuntos vários... logo, aceitam-se bilhetes para todo o tipo de espectáculos. Para além de eventos jazz, estamos abertos a convites para concertos diversos (pop, rock, clássica), cinemas, teatros, inaugurações de exposições e jogos de futebol. Com a promessa de uma crítica imparcial (ou parcial, tudo depende dos valores envolvidos) a cada um dos espectáculos em que nos seja facultada a entrada. Aguardam-se os convites.
posted by Nuno Catarino @ 22:06
2004/05/17
Novas Devoções
Numa altura em que anda tudo a mudar de template, A Forma muda os santos da casa. O critério de selecção foi apenas a admiração/culto/veneração para com as figuras no altar. Para a barra da direita entram escritores, cineastas, actrizes e futebolistas (dois geniais e um que é o exemplo da raça benfiquista). A lista actualizada, e organizada por ordem aleatória, é esta: George Best, Jim Jarmusch, Billie Holiday, William Faulkner, Fernando Aguiar, Alfred Hitchcock, Scarlett Johansson, Stevie Ray Vaughan, António Lobo Antunes, Johan Cruyff, Christina Ricci e Ken Vandermark.
posted by Nuno Catarino @ 22:26
Onde Se Vai Contar do Concerto do Jan Garbarek Group no Centro Cultural de Belém e de Como Um Espectáculo Pode Ser Desequilibrado
No palco estão quatro músicos: três homens vestidos de preto com cabelo branco e uma mulher vestida de branco com cabelo preto. Ao sax de Jan Garbarek junta-se o contrabaixo eléctrico de Eberhard Weber, o piano/"keyboards" de Rainer Brüninghaus e a bateria/percursão de Marilyn Mazur. O concerto começa a navegar numa onda jazz-folk, engraçada, mas muito previsível e chata - para não dizer sonolenta, já que o ocupante da cadeira ao lado da minha dormiu durante todo o concerto. Os ambientes tecidos pelo teclado electrónico davam ares de Vangelis (o que na ocasião não seria recomendável) e as primeiras músicas enquadrar-se-iam perfeitamente na banda sonora de um qualquer filme épico cuja acção se passasse nas Irlandas. Não estava bom - Garbarek previsível, preso. Mas para o fim lá se resolveram a salvar a noite e fazer valer o dinheiro do bilhete. O homem dos teclados atirou-se ao piano e o grupo atirou-se ao jazz. O solo de Marilyn Mazur foi, sem grande discussão, o melhor momento da noite e finalmente percebemos que estavamos a assistir a um grande concerto. Pouco depois a banda saiu de palco. Quando voltou para o encore - versão em grande jazz de "Hasta Siempre" de Carlos Puebla - já sabíamos que podia ter sido sempre assim, podia ter sido um concerto perfeito, mas não foi. Ficou-se apenas com uma bela noite de música saborosa - o que foi bom.
posted by Nuno Catarino @ 20:54
2004/05/14
Petra & Georgios nas Catacumbas
Hoje foi dia de concerto nas Catacumbas, o nosso bar preferido. Petra & Georgios actuaram juntos pela última vez (embora para mim tenha sido a primeira). O barulho das salas laterais do bar, onde estava sentando, não permitiu usufruir da qualidade total do espéctáculo, mas ainda assim deu para sentir a chama. A Petra tem uma voz fantástica, que nos transporta no tempo - viajamos até 1937 e vemos à nossa volta campos de algodão. O grego Georgios acompanhou correctamente com o piano (e até deu para meter a voz lá pelo meio). O contrabaixo envolveu a sala na cadência do ritmo - e só ficamos com pena de não haver bateria, seria um trio clássico perfeito. A entrada da guitarra eléctrica foi outro motivo de interesse, especialmente o diálogo com a melódica. O trabalho dos instrumentos foi competente, mas a Petra mostrou que tem uma voz muito maior que as Catacumbas.
Para compensar os longos períodos em que não há concertos de "grandes nomes", hoje vão haver três grandes concertos de jazz em Portugal - os três em simultâneo e todos imperdíveis... Na Guarda (Grande Auditório) actua John Abercrombie, grande nome da guitarra jazz contemporânea (de descendências mais free). É acompanhado por Mark Feldman (violino), Marc Johnson (contrabaixo) e pelo grande Joey Baron (bateria). Em Tondela (ACERT) vai actuar John Scofield, dos maiores nomes da actualidade da guitarra jazz, este numa linha mais tradicional - a acompanhá-lo estará a banda Überjam. E, para cúmulo, o CCB recebe o primeiro dos dois concertos do saxofonista Jan Garbarek - amanhã eu estou lá!
posted by Nuno Catarino @ 19:26
2004/05/12
A Idade do Gelo
[Antes que aqui venha alguém ao engano, um aviso: estas inúteis observações nada têm que ver com o filme infantil do mesmo nome, são antes apontamentos sobre alguns comportamentos de natureza infatilóide registados ao nível da sociedade de consumo.]
2004. De repente, damo-nos conta da existência no mercado de um novo e esticado leque de produtos, uma nova de geração de consumos, genericamente categorizados de “Ice”. Mas o que significa “ice” (ler áisse)? Do inglês: gelo. Porque não utilizar a palavra portuguesa, que tem o mesmo exacto sentido e também uma grafia curta? Porque é “cool”.
Há uns tempos, a Super Bock introduziu no mercado uma nova cerveja: “Cool Beer” - foi um fracasso. As gentes do marketing aprenderam a lição e pensaram: porquê escolher uma designação morna quando há outra mais agressiva? Foi-se o mais fresco “cool” e adoptou-se o gélido “ice”. Na década de 1990 foi o Ice Tea que invadiu o mundo, mas com o tempo, e obdecendo ás regras do ciclo de vida do produto, a categoria estabilizou e foi-se a moda. Até que voltou, agora. Primeiro, foram as bebidas alcoólicas soft - “Eristoff Ice”, “Smirnoff Ice” e cópias afins (conselho aos jovens: se quereis embebedar-vos bebei gafarras a sério; se não tendes pedalada ficai-vos pelas coca-colas; isso do meio termo é que não, por favor!...). Continuando a falar de assuntos noctívagos, depois foi Santana Lopes a adaptar o conceito à cidade de Lisboa - o ridículo slogan “Lisboa on Ice é Nice” ficará seguramente na memória dos amantes de boa comédia. Voltando ao mercado, entretanto surgiram umas pastilhas elásticas de sabor forte: “Chiclets Ice”. Nos refrigerantes apareceu a “7Up Ice”. Mas agora, até o portuguesíssimo Sumol se inclinou à estratégia: já está por aí à venda uma estranha mixórdia (de sabor agradável, mas cor estranha) designada de “Sumol Ice”. Onde é que isto irá parar?
Também no jazz o mesmo se passa. Analisando os charts, percebe-se: o jazz que mais vende é um certo tipo de jazz “cool”. O arrebatador sucesso comercial de Diana Krall abriu caminho a aspirantes a cantores que, cada vez mais, menos jazz são. E então a música começa a ficar tão cool, tão cool que até arrefece por completo - jazz “ice”? Mas o jazz quer-se “hot” (como o clube que rima com be-bop).
Vivemos na Era da Cois’ice. As regras do negócio ditam que cada coisa que já exista pode ser de novo rentabilizada, cada coisice pode ser re-aproveitada, desde que vendida e re-embalada em versões frescas e frias - o povo gosta à mesma ou ainda mais. Concordamos que está na altura de o calor regressar, de o Verão reclamar a sua propriedade e, quando os termómetros subirem, umas pedras de gelo vão saber bem. Mas já se começa a evidenciar o exagero desta moda. Vamos esfriar?
posted by Nuno Catarino @ 07:48
2004/05/11
Quanto Vale Um Link?
Algunsblogs degladiam-se por um link no nosso Moleskine favorito. Sem grande esforço, A Forma já lá arranjou um espacinho - é o que vale ter cunhas... Obrigado, Inês!
posted by Nuno Catarino @ 22:50
Eu Vou
E depois de um concerto pop, o regresso ao jazz... Jan Garbarek toca no Centro Cultural de Belém. E eu vou lá estar (na sexta feira).
Esta vai ser a quarta vez em que escreverei sobre cortes de cabelo. A continuar assim qualquer dia tenho de alterar o nome do blog para "A Forma do Corte de Cabelo", justificando o nome com um álbum de George Thorogood chamado apropriadamente "Haircut", ou a música do Beck - "Devil's Haircut". Mas não, não iremos por aí. Sigamos.
Então segui o conselho do António e fui à barbearia do Chiado (Diogo, obrigado pela sugestão, mas a barbearia de Benfica fica para a próxima). A casa fica mesmo em frente à saida do metro, estação Baixa/Chiado, e é altamente aconselhável. Trata-se de uma estabelecimento do mais típico barbeiro "old school" português e cumpre todas as condições por mim pretendidas: serviço eficiente, preço razoável e pouco dado a conversas forçadas de ocasião.
No jazz, os músicos começam normalmente por tocar o refrão da música (a parte orelhuda, mais simples) e só depois avançam para a exigência do improviso. Os barbeiros também costumam fazer assim, primeiro cortam com a tesoura o excesso de cabelo mais visível e só depois aprumam o corte com a lâmina. Este do Chiado ignorou a tradição e começou logo por trabalhar minuciosamente. E, enquanto olhava o cabelo a chover-me, fui ouvindo as melodias semi-improvisadas do acordeão que alguém tocava na rua. No fim, percebi: se o serviço foi primoroso, o resultado foi perfeito. A excelência do trabalho efectuado vai-me obrigar, de futuro, a fazer visitas regulares ao Chiado.
posted by Nuno Catarino @ 23:50
2004/05/09
Nothing Adventurous Please
Entra em palco um homem de boné na cabeça. A distância das últimas filas do anfiteatro proíbe qualquer identificação visual mais precisa dos elementos dos Lambchop. Mas assim que a boca se abre para deixar sair “aquela” voz, sabemos: é mesmo ele. Kurt Wagner agarra-nos à primeira canção e mantém-nos suspensos. Às vezes voltamos à terra, outras voltamos a levitar. Por vezes fica-se com a impressão que poderíamos levitar o tempo todo, mas ele não quis assim. Poderia ser um concerto perfeito, mas ficou-se por aquilo que poderia ser. Os momentos de entrada e saída foram magníficos. Viu-se que as canções dos recentes duplos "Cmon’s" foram as mais aplaudidas, mas as músicas de “Is A Woman” são um pico dificilmente igualável. Ainda assim foi uma noite bela - o céu não esteve límpido, mas viram-se muitas estrelas.
[Notas: O concerto atrasou-se uma hora, mas a companhia do professor, no café tomado na escadaria da Aula Magna, foi um momento muito agradável – obviamente a repetir. Quem quiser ler uma excelente crítica ao concerto que và à ampola.]
posted by Nuno Catarino @ 23:59
2004/05/08
Sit Beside Me On a Star, If You Wake Me Up Tonight
Entrei em estágio...
O concerto dos Lambchop é logo à noite, na Aula Magna! E ele também vai.
posted by Nuno Catarino @ 12:57
2004/05/07
Com Açúcar
A chaleira começou a ferver de forma inconsciente mas de repente ganhou vida própria e um ritmo frenético . Às vezes não é necessário explicar muita coisa, sente-se tudo. É disso que se trata aqui. Será mesmo? É chá de magnólia. São servidos?
posted by Nuno Catarino @ 23:43
2004/05/06
Eu Quero Viver Num Mundo... [#3]
Em que os cd's novos tenham o preço máximo de 5 euros.
posted by Nuno Catarino @ 23:56
Eu Quero Viver Num Mundo... [#2]
Em que possa frequentar lojas de lingerie sem que me olhem de lado enquanto pensam "grande tarado!"
posted by Nuno Catarino @ 23:53
Eu Quero Viver Num Mundo... [#1]
Em que o presidente da America seja um homem inteligente e verdadeiro, onde haja paz e amor, onde não existam Nicklebacks.
posted by Nuno Catarino @ 23:52
Teatro de Canibais @ Santiago Alquimista
Fui finalmente ao sítio da moda. Ainda não tinha lá ido antes, mas fazia mal, poque o Santiago Alquimista vale bem a visita. A programação é exemplar, alternando concertos de grande nomes (e esta semana foram os Calexico - mas porque é que não fui?), com novas bandas portuguesas, nunca se fechando num só estilo/conceito, mas alargando a programação (e, consequentemente, o público). Mas a coisa vai para além da música.
Fui hoje lá assistir à estreia da nova peça do 2º a Circular, o grupo de teatro da Escola Superior de Comunicação Social (a minha ex-faculdade). Fui mais por uma questão de afinidade que pelo interesse artístico, mas a peça revelou-se bem gira. É a história de uma família de canibais com alguns personagens satélite - para teatro amador universitário não está nada mal, não senhor... É aproveitar, nos próximos dias: usufrui-se do espaço, bebe-se uma imperial Heineken e, ainda por cima, assiste-se a uma peça engraçada! Mas a surpresa da noite foi a agradabilíssima companhia de um antigo professor... O professor Adelino já era uma referência por nos ter incutido, com o seu óptimo humor, o gosto pelo curso. Mas a conversa de hoje revelou cumplicidades culturais desconhecidas. A faculdade é muito mais que dois ou três livros... Obrigado pela cerveja!
"Quando o Jantar Bate à Porta" Encenação: Pedro Górgia
Horário: 22H30 - 0H00
Dias 05/07/08 e 12/13/14/15 Maio
7€, com direito 2ª bebida.
Ide, malta!
posted by Nuno Catarino @ 02:49
Kitsch'R'Us
Hoje no trabalho fizeram-me uma surpresa. O Nuno Miguel Carvalho, que como eu é cultor de mitologias alternativas (algumas a roçar o conceito regular de kitsch), ofereceu-me o single em vinyl de "Recordar é Viver" do Victor Espadinha. A música é uma versão aportuguesada por Tó Zé Brito de um sucesso francês, mas marcou gerações - a minha mãe diz que namorou ao som deste playboy pré-Camarinha. Recordar é viver. Obrigado, Nuno!
Wasted and wounded, it ain't what the moon did, I've got what I paid for now
See you tomorrow, hey Frank, can I borrow a couple of bucks from you
To go waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
I'm an innocent victim of a blinded alley
And I'm tired of all these soldiers here
No one speaks English, and everything's broken, and my Stacys are soaking wet
To go waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
Now the dogs are barking and the taxi cab's parking
A lot they can do for me
I begged you to stab me, you tore my shirt open,
And I'm down on my knees tonight
Old Bushmill's I staggered, you'd bury the dagger
In your silhouette window light go
To go waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
Now I lost my Saint Christopher now that I've kissed her
And the one-armed bandit knows
And the maverick Chinamen, and the cold-blooded signs,
And the girls down by the strip-tease shows, go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
No, I don't want your sympathy, the fugitives say
That the streets aren't for dreaming now
And manslaughter dragnets and the ghosts that sell memories,
They want a piece of the action anyhow
Go waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
And you can ask any sailor, and the keys from the jailor,
And the old men in wheelchairs know
And Matilda's the defendant, she killed about a hundred,
And she follows wherever you may go
Waltzing Matilda, waltzing Matilda,
You'll go waltzing Matilda with me
And it's a battered old suitcase to a hotel someplace,
And a wound that will never heal
No prima donna, the perfume is on an
Old shirt that is stained with blood and whiskey
And goodnight to the street sweepers, the night watchmen flame keepers
And goodnight to Matilda, too
["Tom Traubert's Blues (Four Sheets to the Wind In Copenhagen)", Tom Waits]
posted by Nuno Catarino @ 00:32
2004/05/04
Waltzing Matilda
O que se sente quando reencontramos algo que julgávamos perdido? Sentimos uma grande alegria, pelo reencontro e por ser uma coisa inesperada. Aconteceu-me hoje. Devolveram-me um disco que eu tinha emprestado há mais de um ano e que julgava não tornar a ver: "Swordfishtrombones" do enorme Tom Waits. Voltei hoje a escutar estas melodias:
O Tom tinha avisado da sua vinda (falei nele no post abaixo). E já durante o fim de semana andava a escutar este:
Este outro, volta e meia, roda cá por casa:
E ouvi dizer que há-de sair um novo... talvez ainda este ano! The piano has been drinking (not me).
posted by Nuno Catarino @ 00:55
2004/05/02
Da Poesia Enfrascada ou O Outro Zeca
José Medeiros é um notável artista açoriano. A sua faceta mais visível será o trabalho como realizador de TV ("Mau Tempo No Canal"), mas a sua obra musical tem de ser divulgada. Foi-me apresentado pelo amigo Paulo Tavares, do Pico. Descobri o Zeca (nome pelo qual também é conhecido) através do seu disco "Cinefilias e Outras Incertezas". À primeira audição diz-se: é o nosso Tom Waits! Mas é mais que isso. É uma musicalidade altamente poética, popular e culta, cinéfila e tradicional - a relevância que é dada à música popular portuguesa só terá paralelo em Fausto. Nesse disco as músicas têm todas nível superior - especialmente "Isaltina", que é um momento raro de tristeza e amor, humor e melancolia (e devia ser proibido não se conhecer música deste quilate). Soube há dias que o senhor tem um novo disco. Depois do gosto que tive em conhecer o primeiro album, estou muito curioso em ouvir esta nova obra chamada "Torna Viagem".
posted by Nuno Catarino @ 17:12
2004/05/01
Eu é Que Sou (Sobrinho do) Presidente da Junta!
Por estes dias em que os ocupantes de cargos do poder local são diariamente acusados de crimes de ordem vária, é necessário lembrar que nem todos são iguais e alguns até são muito bons. Na freguesia de Fonte Boa (Esposende), o poder era desde há décadas ocupado pelas mesmas pessoas, todas politicamente vestidas de laranja (amarga), que mesmo sem fazer nada de relevante para a população ou para o desenvolvimento da terra se mantinham no poder e, provavelmente, teriam a esperança de lá continuar ad eternum. Nas últimas eleições autárquicas, uma aliança PS-PP (estranha aliança, é verdade...) encabeçada pelo meu tio António Catarino desafiou a ordem das coisas. Foi às urnas sob o nome de Partido da Terra (MPT) e alterou definitivamente a história eleitoral, afastando os históricos do PSD. Desde logo se notou a diferença. Tornou-se visível a obra feita, os fonteboenses perceberam finalmente o significado do poder local. E os vizinhos invejam esta presidência. Apesar da dimensão da freguesia, até houve investimento em tecnologias de informação - agora há postos grátis de acesso à internet na sede da junta de freguesia. E, numa acção pioneira (para a região), foi lançado o site: www.jf-fonteboa.com. No poder local há gente que trabalha bem. E nem todos são Valentins ou Avelinos.
posted by Nuno Catarino @ 13:28
É Uma Rã Bem Passada, Já Que Não Há Mais Nada
Vi hoje no Alvaláxia o filme de animação francês “Les Triplettes de Belleville”. O trailer engana - ao contrário do que esperava pela sua frenética apresentação, o filme é uma aventura melancólica. O traço do desenho tem personalidade própria, é muito bem humorado - o humor do filme é quase sempre conseguido pela caricatura dos bonecos. A caricatura é mesmo a marca mais óbvia desta fita, é neste exagero que o filme marca o seu espaço. E também pela atenção ao pormenor – os galos de Barcelos na toalha de mesa, o guitarrista Django Reinhardt (identificável pelos três dedos), o poster do filme de Tati na parede, Madame Souza a cantar “Uma Casa Portuguesa” – tudo é delicioso. A história é plana, uma variação sobre o clássico “os tipos maus raptaram um dos nossos, vamos salvá-lo”. Mas é uma variação tão incomum, tão bela e tão terna... A não existência de diálogos quase nem se nota, a história é tão fluída que as palavras são desnecessárias. À falta de vozes, a banda sonora tem um papel essencial e a música “Belleville Rendez Vous” é doce e viciante. E a improvisação das Triplettes + Mme. Souza tem de ser considerada como um momento inesquecível de free jazz/improv. no cinema! Uma ternura imensa atravessa o filme todo. Faz-se a habitual apologia das relações humanas, do bem contra o mal, mas sem os clichés gastos da indústria americana. Tudo tão simples, tão comovente. E o filme é tão bonito... nao é?
posted by Nuno Catarino @ 00:21