A querida Sara escreveu-me, em modo off-topic, do Benfica. O Benfica ganhou, vi na TV, e pela janela de casa deu para perceber que a magnífica catedral estava luminosa. O Benfica ganhou. Só isto já daria um belo post, bonito e raro. Mas o Benfica ganhou num jogo europeu, o que torna a notícia ainda mais importante. Lembro-me do último grande jogo europeu do Benfica a que assisti. Lembro-me bem, era um jogo da Liga dos Campeões, com o PSV Eindhoven (ou o Ajax ou outra equipa holandesa qualquer, lembro-me bem), o João Pinto ainda era o nosso amado capitão e o Abel Xavier jogava pelos holandeses. Nessa noite eu estive no estádio. O jogo deu uma chuva de golos. Lembro-me que o João Pinto jogou bem (pelo menos para mim). E o Xavier ainda tinha um look “moderado”. Outros tempos.
Actualmente estas duas personagens futebolísticas são notícia, não pela sua participação na Champions League, mas pelas suas conquistas amorosas/sexuais. Há dias especulou-se que o nosso Abel teria tido um caso com a Carla Matadinho - a moça que, ficando famosa por todo o Portugal por ter fotos íntimas expostas na net se aproveitou para tornar Miss Playboy Portugal – um exemplo para todas as jovens portuguesas com grandes ambições na vida. No entanto, esta eventual hipótese de “affaire” foi prontamente desmentida pelo jogador. Já um outro romance ganha contornos oficiais: João Pinto e Marisa Cruz. Ao saber da nova fiquei, basbaque, de boca aberta durante trinta segundos a reflectir na vida. Este facto desconstrói todas as fundações em que se baseou a minha educação! Como é que indivíduos de universos tão diversos se podem juntar? Amigos, é o descalabro! A partir desta união deixa de fazer sentido haver qualquer separação entre universos aparentemente distantes. Já ninguém se admirará se o Alberto João Jardim anunciar uma relação com Margarida Rebelo Pinto, já ninguém dará importância ao casamento entre Jacinta [Miss Blue Note, como dizia a Joana] e Joaquim (mais conhecido por Quim) Barreiros. Alargando as consequências a outros campos, deixa de fazer sentido haver, por exemplo, a divisão entre bonecos da Warner Bros e da Disney – e assim se explica a história mal contada do Pato Donald e dos três sobrinhos que não têm pai: o pai dos putos é o Daffy Duck, que por razões profissionais os abandonou bem novos, tendo estes sido posteriormente adoptados pelo tio Donald. Esta notícia abalou definitivamente o meu modo de ver as coisas. Será que Coltrane gravou em 1965 o álbum cheio de raiva “Meditations” depois de ter visto a Simone de Oliveira no festival da Eurovisão desse mesmo ano? Bem, agora as possibilidades são infinitas.
Mas, dizia, o Benfica ganhou. Se jogou bem? Como diria o grande Diogo*:
pá, é naquela.
[*Obrigado pela dica dos saldos da AnAnAna - para a semana estou lá!]
posted by Nuno Catarino @ 01:10
2004/02/25
The Waterboy Goes "Blue Series" [A Favor da Tal de Modernidade]
(Antes de mais, leiam este texto d'A Corneta, de onde roubamos parte do título - porque o gigante Trane legisla sempre!)
Há tempos falei da renovação do jazz por intermédio dos The Bad Plus. No entanto, há outras formas de renovação em curso. A editora Thirsty Ear, através das “Blue Series”, promove aquela que é talvez a mais larga tentativa de ampliação dos caminhos do jazz moderno. Por esta renovação estilística já gravaram nomes como o grande David S. Ware, os electrónicos Spring Heel Jack e Matthew Shipp - a solo e com o grupo hip-hop Anti-Pop Consortium.
Já o ano passado saiu pela colecção “Blue Series” um album assinado como Spring Heel Jack, mas onde Evan Parker, Mathew Shipp, J Spaceman, William Parker e Han Bennink são o centro da acção – para quem procure a luz, este será talvez o mais luminoso disco saído em anos recentes (só o descobri agora, confesso). Nas fronteiras das definições possíveis de música, o álbum “Live” é uma obra transgressora da moralidade – é em discos como este (há poucos) que se devia colar um autocolante a dizer “obrigatório”.
O mais recente lançamento desta colecção é o álbum "High: Water (Mark)" de El-P. El-Producto (também se chama assim o homem) é um dos grandes nomes do hip-hop alternativo. Eu como de hip-hop não percebo nada – tal como dizia o grande Lou Reed: "i'm just the waterboy, the real game is not over here" - não me vou alongar para falar desta faceta. O que me interessa no álbum é que aqui há jazz. E do bom. Este álbum, construído a partir de bases instrumentais, é uma manta de retalhos, mas onde não se notam as linhas por onde foi cosida. Nivela-se bem acima da mediania e é de uma uniformidade invejável. A canção "Yesterday When I Was Young" de Aznavour serve de mote para três dos oito temas do album, mas nem isto cansa, antes aumenta a envolvência e homogeniza o disco. Ao contrário de Madlib, El-P não precisa de rebuscar todos os arquivos e clássicos da Blue Note - a partir de pouca coisa cria um magnífico álbum. É verdade que resultado final soa a um permanente ensaio de um grupo de jazz. Mas não é a procura de um caminho para a música um ensaio constante?
“The Blue Series”? Sim, os caminhos do jazz passam por aqui. Alguns, mais “conservadores”, é certo que não apreciarão grandemente os resultados. Mas lá que tem sido dados grandes contributos em direcção à mudança, à evolução criativa, isso é inegável.
Outro apontamento: Ken Vandermark estará no teatro Maria Matos para o concerto de inauguração do “Jazz ao Centro”. A renovação de Vandermark já vem sendo feita desde há uma década para cá. Hoje, Vandermark estará para o jazz como o mais importante músico, impulsionador, colaborador, mentor da cena de Chicago, do free, improvisações e descendências. Este músico imparável estará entre nós na quarta feira da próxima semana. Tal como aconteceu no genial concerto de Fred Anderson com Hamid Drake em 2002, por uma noite Lisboa será Chicago. E eu vou viajar até lá.
posted by Nuno Catarino @ 23:35
2004/02/23
Trajecto de Blogger Imperfeito
Há dias, o blogo-papa Pacheco Pereira definiu o trajecto do autor de blogues perfeito: ir à FNAC do Chiado, marcar encontros para o Magnólia, passar pela Ler Devagar. Na tentativa de imitar o blogo-mestre também eu tentei este fim de semana fazer o percurso perfeito do blogger. Tomei um café no Magnólia, antes de ir ao "Love In Translation", tentei ir à fnac do Chiado (mas quando lá cheguei já estava fechada) e ainda se pensou passar pela Ler Devagar (mas já era tarde). O que faz com que só tenha efectuado 1/3 do percurso ideal, apesar das intenções. Para compensar, como este é um blog semi-jazzófilo, fui ao Hot Clube, o santuário do jazz português. Já lá não ia há bastante tempo, fui no sábado, para mostrar a mítica cave à minha mais-que-tudo, ao mesmo tempo que pus a conversa em dia com mais duas amigas - sim invejosos, eu era aquele que estava rodeado de três miudas giras. O grupo que tocou foi um invulgar quinteto formado por dois trombones, guitarra, contrabaixo e bateria. Claus Nymark esteve imparável sempre a boppar, a guitarra do desconhecido Virgílio Gomes partiu tudo, os restantes instrumentos estiveram bem - um grande concerto. Nota mental: tenho de lá ir mais vezes.
posted by Nuno Catarino @ 22:12
2004/02/22
Sim, o JVP é mesmo o Maior! [Direito de Contra-Resposta]
Já poderia ter abandonado a discussão, mas não gosto de barretes (a menos que sejam uns gorros que vi há uns dias numa loja, agora com este frio dão muito jeito). A verdade é que dos “dois ou cinquenta” jogos que vi na televisão (talvez tenham sido mais, mas de momento não conseguir fazer a contabilização exacta) ganhei a experiência necessária para poder tirar algumas ilações sobre o mundo futebolístico. Depois de várias épocas a seguir o campeonato nacional (entre outros), memorizando os nomes, posições e características de quase todos os jogadores da primeira divisão [agora diz-se I Liga, não é?] e alguns da segunda, acompanhando os jogos todos, vendo os resumos e golos, jogando na Liga Fantástica, Jogo d’A Bola, consultando diariamente vários jornais desportivos [aqui inclui-se O Jogo], julgo ter um background mínimo que me permite dar uma opinião. Mesmo sem ter a possibilidade financeira de ir 500 vezes ao Estádio da Luz - já lá fui algumas vezes, assim como às Antas e a Alvalade. E apesar de ontem ter ido ao Hot Club não vou lá assim tantas vezes. O conhecimento não se ganha só com o assistir ao vivo... De que vale frequentar alguns concertos do Hot Club se não se conhece o “Kind of Blue”? Mais que a ida ao estádio, o importante é ver (e nas cadeiras longínquas do estádio quantas vezes ficam por perceber os lances mais complicados?). A ida a um concerto (principalmente se for só do mesmo músico) apenas complementa. Mas adiante.
Sem problemas, confesso: o meu modo de analisar futebol é unicamente feito em modo de “gosto”. Não sei da base teórica que o suporta. Mas tento sempre, como em qualquer outra coisa, que tudo o que diga seja justo, honesto. E não gosto dessa extremosa forma matemática de analisar o jogo. Não gosto de ver três dribles consecutivos reduzidos a uma “bola perdida”, não gosto de ver um passe genial a toda a largura do campo transformado num pobre “passe certo”. Percebo que a análise estatística seja importante para alguns aspectos do jogo. Compreendo que os jogadores tenham de trabalhar, que o Rui Costa tenha de recuperar bolas. Mas sem arte o futebol não passa de um monótono rectângulo verde com bonecos às cores a correr. Para ver futebol sem alma prefiro aproveitar o domingo para ir às compras a um centro comercial. A arte é o que chama as pessoas aos jogos, por isso é que o Rui Costa é muito bom, por isso o João Pinto é o maior (e poderia ser dos melhores jogadores do mundo se tivesse trabalhado, como o Figo). Tenho esperança nessa tal “margem de erro” - é isso que faz sempre toda a diferença. Gosto quando o futebol moderno resgata a magia solta de Garrincha, de George Best, de Poborsky. E o Zidane, que obedece às ordens, deve ser multado por fazer uma “roleta” dentro da área adversária numa jogada de grande perigo?
A paixão clubística... Como saber se ela está presente ou ausente? Se somos do clube desde pequeninos ela poderá por algum momento ficar longe de nós? Só comecei esta polémicazinha por achar injusto culpar um jogador do Benfica por estar presente num lance normal de futebol (o auto-golo) - foi o tal fervor benfiquista que me despertou a defesa da causa? Talvez a “imprensa de Lisboa” não se consiga despir desse clubismo. Pessoalmente não concordo com a análise algo discriminatória que por vezes fazem ao F.C.Porto (admito que existe). Não sei se o amor ao FCP está completamente ausente da tua análise, mas prezo que pelo menos se tente. Fosse toda a gente assim e credibilizava-se o futebol todo.
Mas tal como dizes, o futebol de hoje é altamente objectivo. E isso não me interessa. Por isso cada vez mais me desligo da futebolada por troca com matérias que me convocam mais interesse. Agora vou procurar o novo álbum de El-P: “High Water: Mark”.
posted by Nuno Catarino @ 22:16
Love In Translation
Fui ontem (finalmente) assistir ao tão propalado novo filme de Sofia Coppola [aos distraídos ou a algum ET: Lost In Translation / O Amor é um Lugar Estranho]. Andava com uma vontade imensa de o ver, mas adiei até agora para ir com a companhia perfeita. Sim, valeu a pena. Já toda a gente disse tudo sobre o filme, o expert Mourinha fez bem em elegê-lo como um dos filmes da sua vida. E a música, e a música!... Para me poupar palavras, a música final dos Jesus & Mary Chain diz tudo, quando ecoa: “it’s good, so good, so good... Just like honey, just like honey, just like honey” [repetir dezassete vezes].
posted by Nuno Catarino @ 20:38
Antes de mais peço desculpa pela demora na resposta à sua carta, mas a partir do meio da tarde de ontem estive ausente pelo que só agora regressei às lides blogosféricas.
Concordo com a argumentação da qualidade. Quem tem uma colecção de cem discos não pode ter a mesma legitimidade que eu com os meus (ainda assim poucos) 967 discos [968 com o novo dos Tortoise]. Há de facto uma relação entre a quantidade e o conhecimento que implicitamente se absorve dela. Também concordo que uma análise deve ser, mais que tudo, objectiva. E para isso é necessário ter factos para sustentar a opinião, saber das estatísticas, saber bem do que se fala. Não sou arquitecto, não toco nenhum instrumento [nem pop, nem jazz], nunca pratiquei desporto federado [apenas joguei em alguns torneios de futebol 5 e como suplente utilizado ainda marquei alguns golos] – mas também me custa ser superficial na análise. No entanto é preciso notar: falamos de futebol. O Ben Webster não é o Stanley Matthews, o Thelonious Monk não é Cruijff, o John Coltrane não é o Diego Maradona. Futebol é um desporto com regras próprias, alguns vícios adquiridos e muita paixão, paixão mais que tudo. É impossível falar do nosso clube sem deixar transparecer esse amor que nos faz desde que nos conhecemos. Mas apesar de tudo acho que devemos sempre tentar essa (difícil) imparcialidade.
Por isso, digo: pretender cruxificar um jogador por ter marcado um autogolo ao serviço da selecção e, pior de tudo, ser do Benfica, não é um bom princípio. Uma breve análise à história e estatística do futebol mostrarão que jogadores do F.C.Porto também já marcaram autogolos [ou estarei errado?]. E achar que os “media de Lisboa” (expressão algo old-fashioned) dão protecção aos atletas verdes e vermelhos é uma opinião válida, mas será necessário notar que também no Porto há meios de comunicação, lobbying e pressão – será que “O Jogo”, “JN” e demais só ecoam ventos sulistas? E não são também os media de Lisboa que perguntam a cada entrevista ao senhor Scolari pelo Baía?
Quanto às convocações para a selecção o ideal seria que se escolhessem sempre os melhores, aqueles que estivessem em melhor forma, aqueles que naquele momento conseguissem fazer da equipa nacional uma equipa melhor. No entanto é impossível observar todos os jogadores portugueses em actividade, analisar as estatísticas de todos. Como tal, entre aqueles que se observam com mais regularidade, escolhem-se os que parecem em melhor forma. Quanto ao Paulo Ferreira concordo que como lateral direito seja melhor que o Miguel. E o Vítor Baía devia ir à selecção. Não porque seja o melhor guarda-redes português – o Ricardo é mais seguro, eficaz, consistente, regular. Se o Baía não sofre golos deve muito à excelente defesa do FCP - as estatísticas também enganam (ou o Jardel seria considerado o melhor jogador do mundo). O Baía merece a chamada pelo historial que tem, é um dos grandes nomes do nosso futebol - o culto da mitomania é também importante no futebol. Assim, para defender a baliza ia o Ricardo, como suplente com estatuto de “star” ia o Baía. E, para terceiro guarda-redes, porque não chamar o Moreira? Por ser do Benfica? É o guarda-redes que mais cresceu no futebol português, em poucos anos conseguiu afirmar-se e segurar com força o lugar da baliza no maior clube português [pronto, esta aqui é só uma provocação]. Por questões de justiça, o Moreira merecia uma chamada à equipa principal. Tal como o Petit deveria ser chamado mais vezes, apesar da qualidade óbvia do Maniche e do Costinha; não nos devemos fiar só nas estatísticas, há mais vida para além disso e nem tudo o que se passa dentro do campo verde pode ser quantificável. Já o Deco não é minimamente comparável ao Rui Costa – questão de fineza de artes. Sorry.
posted by Nuno Catarino @ 14:40
Ao Leonard
Ouviste dizer que havia um acorde secreto, que David tocou e agradou ao Senhor, mas tu não queres saber de música, pois não? Tocaste essa aleluia depois de muitas aleluias outras, qual a maior. Cantaste a Joana d’Arc e as irmãs da misericórdia. Aleluias santas ou profanas. Despediste-te da Marianne e deixaste a Suzanne levar-te a um sítio que fica ao pé do rio, onde te alimentou a laranjas e chá que vieram da China. Levaste mulheres ao Chelsea Hotel nº2, a muitos outros lugares ou simplesmente abrigaste-as no teu famoso sobretudo azul. Canções de amor e ódio, nessa obra máxima que não ousaste mais igualar para que ficasse lá no cimo sem par. De princípio dizias que o amor nos chamava pelo nome, já para o fim, sabedor, disseste não haver cura para o amor. Para quem não se dispusesse acreditar ofereceste-te: sou o teu homem. Toda a gente sabe que és o maior poeta que alguma vez saiu da música. Mas tu não queres saber de música, pois não? Cantai outra canção, rapazes!
[Post de Setembro, repostado por questões afectivas - obrigado J.B.]
posted by Nuno Catarino @ 13:13
2004/02/21
She Was Feeling 1972
O título do álbum de Josh Rouse fez-me questionar: será que 1972 foi assim um ano tão bom na edição de discos? Após consulta à minha colecção verifiquei que terá sido dos melhores anos de sempre, senão mesmo o melhor da história do rock. Vejamos: 1972 foi o ano de "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" do Bowie. Também neste ano nasceu "Transformer", a obra prima de Lou Reed [tenho consciência do que digo, ainda hoje ouvi o "Berlin" - são universos distintos, meus senhores], tal como o disco de estreia dos Roxy Music. Algumas obras máximas do progressivo foram paridas por esta altura ("Thick As a Brick" dos Tull, "Octopus" dos Gente Giant, "Fragile" dos Yes). Neste ano ainda houve "Exile on Main Street", da melhor colheita dos Stones, "Pink Moon" do Nick Drake e o debute dos Big Star (#1 Record). Se não houvesse mais história do rock para além deste ano, a colheita seria suficiente para servir de exemplo do que é boa música (rock). Comparável com este ano acho que só mesmo 1967. Foi em '67 que o mítico "Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band" dos Beatles saiu, tal como "Are You Experienced?" de Jimi Hendrix e "Goodbye and Hello" do Tim Buckley. Também foi neste ano que algumas das mais importantes bandas de sempre editaram pela primeira vez (e provavelmente os seus melhores discos): The Velvet Underground & Nico com o álbum homónimo, os Pink Floyd com "The Piper at the Gates of Dawn" e os célebres The Doors. Para mim a melhor colheita é 1972. E depois 1967. Mas os caros leitores podem sugerir novas possibilidades, que isto tudo é bastante subjectivo.
posted by Nuno Catarino @ 14:31
Mudanças
Mudamos. A partir de agora este blog encurta o nome, passamos a ser simplesmente A Forma do Jazz. Dos que me linkam poucos terão de fazer alterações - já quase todos me tratavam desta forma. Houve também uma pequena mudança ao nível do lettering do cabeçalho - o título do blog passou a ser acompanhado permanentemente pelo sopro livre de Ornette Coleman. E a coluna do lado direito exibe agora um recorte da letra do clássico "Stardust" (sugestão: ouvir a primeira versão gravada por Louis Armstrong). Mas agora continuemos.
posted by Nuno Catarino @ 03:25
2004/02/19
Da Magia Que Exala das Novas Camisolas
Já alguém reparou como as novas camisolas da selecção nacional são bonitas? Aquele vermelho vivo, aquele círculo à frente a realçar a importância do número no contexto da envolvência futebolística. Lindo. Acho até que foi esta redifinição estilística que nos fez regressar a boa técnica de jogo, as fintas estonteantes, o Figo que volta a ser o melhor do mundo. Sim, porque o importante é o espectáculo; os resultados são coisa que não interessa a ninguém - só os franciús é que ligam a isso, e mesmo assim só conseguem lá chegar com ajuda de árbitros [este blog é membro oficial do clube "Aquilo do Abel Xavier Não Foi Penalty!"]. O que nos vale é que no Euro '04 os árbitros vão estar connosco. Assim: árbitros + camisolas novas = Fernando Couto a erguer Taça. É um optimismo desavergonhado, mas não resisto: tenhamos fé.
posted by Nuno Catarino @ 19:42
Da Irritação Provocada pelo Aplauso (Ou Não)
Ontem à noite houve concerto de Cecil Taylor com Tony Oxley no CCB. Cecil Taylor, nome lendário do jazz livre, um dos maiores de sempre ao lado de Ornette, esteve de volta ao nosso país (ver crítica aqui). Já este ano faltei ao concerto dos The Bad Plus. Mas a falha deste concerto de Cecil Taylor, pela raridade da sua loucura genial, foi realmente gravosa. Facto: tenho de começar a assitir a concertos com mais regularidade. O problema é que muitas vezes os bilhetes são muito caros. E ainda não fiz as amizades certas para receber convites à borla - nota: a quem queira oferecer bilhetes para qualquer espectáculo aviso da minha disponibilidade, estou completamente receptivo. Mas enquanto não me oferecem, e como "as finanças" não dão para tudo, tenho de ser selectivo e às vezes sou tão selectivo que quase não vou à música ao vivo. E não é que não goste dos aplausos - só nos discos ao vivo é que me irritam um bocadinho. Assim, apesar das dificuldades, em jeito de resolução de ano novo (que foi assim há poucochinho...) tomo uma decisão: ir a mais concertos. Para já vai haver um em que vou estar presente - Lambchop, 8 de Maio na Aula Magna [já ouvi os novos álbuns e qualquer dia escrevo sobre isso]. Para um horizonte temporal mais pequeno, já para amanhã quinta-feira, fica uma sugestão: na comemoração do 38º aniversário do programa "Cinco Minutos de Jazz", concerto de Jacinta [a nossa Bessie Smith ajazzada] à borlix no auditório da RDP - Amoreiras. É aproveitar, disto não há todos os dias!
posted by Nuno Catarino @ 02:12
Estranhas Formas de Jazz
Uma das maravilhosas ferramentas a que tenho acesso para controlar a saúde deste blog é o Sitemeter, que para além de indicar o número de visitas também permite saber a origem dos visitantes. Verifico que, como é natural, a maioria das visitas vem aqui parar através de links de outros blogs. No entanto há quem venha aqui parar por engano. E a esta forma do jazz já veio muita gente ao engano, que procurava no Google, e só a título de exemplo, as seguintes informações:
- Diana Krall autógrafo [infelizmente não temos disponível em stock de momento]
- parque de campismo piao - "the byrds" "gosto de" [sim é verdade, gosto dos Byrds, como é que adivinhou?]
- musicas guns rouse [era suposto ser guns 'n' roses?]
- portas automaticas stanley - TRADUÇÃO MUSICA KENNY G [vade retro Satanás!]
- worten jazz - bandalusa [já cá vieram 3 visitantes diferentes à procura desta mítica banda 'tuga!]
- my funny valentine telemovel [este também quero, mas em versão polifónica faz favor]
- História do Sport Lisboa e Benfica na época de Rui Costa [ai as saudades!...]
No entanto, um visitante em especial deve-se ter sentido extremamente defraudado com o que aqui encontrou... é que no Google, o tal visitante procurou as seguintes palavras:
- strip tease povoa santo adriao Ao desiludido visitante só posso aconselhar uma consulta às páginas amarelas, onde por certo encontrará, e com mais rapidez, o que procura. [Ainda pensei postar fotos de mulheres nuas (ou seriam homens o que se pretendia?) mas se calhar já não vou a tempo de satisfazer a pobre criatura perdida na imensidão da net]. Boas pesquisas para todos!
posted by Nuno Catarino @ 00:41
Com a memória activada pel'O Som e a Fúria [blog faulkneriano, novinho e de bom gosto, que partilha comigo uma certa adoração a "Loveless" dos My Bloody Valentine - uma das audições de ontem] deixo aqui uma descoberta recente, aconselhada há já algum tempo pelo blog tape 404 error e também pelo Dj Kaspar - "Alcachofa", álbum do alemão Ricardo Villalobos. Os experts chamam-lhe micro-house e outros nomes esquisitos, mas é uma sonoridade electrónica ao mesmo tempo bastante agradável (sem ser oferecida) e inventiva (sem perder a envolvência). É definitivamente um dos grandes álbuns do ano passado, infelizmente descoberto só agora.
Já outra recomendação do tape 404 não me suscitou o mesmo efeito. "Lonely Mountain", álbum de estreia do islandês Mugison não me cativou por aí além... Habituado que estava à genialidade a rodos vinda da Islândia [(ou)vide Múm, Björk, Sigur Rós], este Mugison não me suscitou semelhante admiração... ainda não o ouvi muito, é um facto, mas confesso que esperava mais - é o que acontece quando se põe as expectativas muito elevadas. É um disco digno, feito de canções de matriz mais-ou-menos clássica com algumas pineceladas electrónicas. Não vai revolucionar, mas apesar de tudo é um bom álbum (talvez até mais que isso).
posted by Nuno Catarino @ 00:19
2004/02/17
Da Passagem do Tempo e da Intemporalidade
Fiz ontem uma visita a um Cash Converters desta vida. Reparei, ao visionar capas de velhos álbuns de vinyl, nas cabeleiras e bigodes farfalhudos que os artistas (quase todos dos anos 70 e 80) exibiam orgulhosamente. Agora parece tudo absolutamente demodé, ridículo, objecto de graça até. São marcas de um outro tempo e são a prova que o tempo nos muda alongadamente. E isto fez-me pensar: será que daqui a dez anos a crista que usei no ano passado vai parecer assim tão ridícula?
Mas se há coisas que com o passar dos anos perdem a graça (ou ganham-na, no sentido risível), outras mantém o seu fulgor pelo tempo fora. Sim, falamos novamente de José Cid, porque ontem trouxe do Cash Converters um single fantástico em vinyl por 37 cêntimos - lado A: "Um Grande, Grande Amor", a música que foi à Eurovisão [aquela do "adio, adieu, auf wiedersen, goodbye, amore, amour, mein liebe, love of my life"]; lado B: "Barbara", uma grande música, completamente disco, que não ficaria mal na BSO do "Saturday Night Fever", entre os hits dos Bee Gees e "More Than a Woman" dos Tavares (uma banda de origens caboverdianas que merecia mais atenção).
PS: A propósito da foto... Chegamos a um ponto na evolução da blogosfera em que, para além do conteúdo dos textos, se questiona a identidade - de quem escreve, de quem comenta, de quem lê. Disponibilizar fotos identificando os autores é uma forma fácil de arrumar esta questão. A linda Sara do Cacao foi a primeira a mostrar-se. Depois a Fata Morgana com a maravilhosa franja. Por aqui também havia uma obrigação moral em seguir a moda... Como o boneco é absolutamente verosímil à minha imagem eu não precisava de postar fotos... mas esta aqui abaixo é maravilhosa e não resisiti (e além disso não se vê a cara, eheh).
posted by Nuno Catarino @ 19:58
2004/02/16
Superman Over the River
O autor deste postal é o meu irmão, Marco Catarino. A ideia da foto foi minha - mas por evidente falta de talento não consegui nada de jeito após várias tentativas, enquanto que o meu "bro" conseguiu esta imagem logo à primeira. O local é a Barca do Lago: na margem direita fica o areal/relvado de Fonte Boa - onde as vacas ainda hoje costumam pastar; do lado esquerdo situa-se Gemeses - a capela da Senhora do Lago (e agora recentemente um campo de golfe). Aprendi a nadar a atravessar este rio Cávado, outrora menos poluído [e onde já muita gente morreu afogada]. Agora raramente por lá passo, a água turva já não me chama como dantes, mas este local terá sido onde gastei a minha infância com mais prazer. Obviamente, o "Superman Over the River" sou mesmo eu! :-)
posted by Nuno Catarino @ 20:24
2004/02/13
Arranja-me Um Emprego
E agora uma coisa séria - a net para mudar a minha vida. É assim: procuro trabalho. Sim, neste momento estou empregado, mas não se trata o emprego dos meus sonhos (isso existe?) nem o mais adequado à minha formação (se é que tenho alguma). Trabalho neste momento como Assistente de Back-Office para a EDP, numa situação financeira (minimamente) estável, mas pouco interessante, pelo que pretendo uma evolução profissional para algo que me satisfaça a alma - um trabalho intelectualmente estimulante, que me faça levantar da cama com vontade de participar em projectos ambiciosos. Se alguém tiver o poder de decisão e/ou influência, que me faça o favor (até nem costumo pedir muitos).
Oferece-se: Jovem licenciado em Publicidade e Marketing, com experiência relevante em gestão de conteúdos, design gráfico e software variado, que pretenciosamente se acha criativo e (apesar de tudo) organizado. Disponível para uma multipicidade de tarefas, mas especialmente interessado em marketing (assistente de marketing seria ideal), mas outras propostas serão igualmente bem recebidas e consideradas.
Procura-se: Empresa audaciosa, disposta a pagar um salário pouco-mais-que-mínimo a um jovem semi-inexperiente disposto a qualquer coisa (ou quase).
Enviar propostas (sérias) para nunocatarino@netcabo.pt, que eu responderei, enviando o CV completo. Obrigado.
posted by Nuno Catarino @ 00:10
2004/02/12
Pior Que Mau, The Bad Plus? Sim, Mas São Azuis
Perguntava há tempos o Jazz do Improviso: pior que mau, só The Bad Plus? A questão punha-se por altura do concerto no CCB e o blogmaster João M. Santos desconfiava da qualidade do grupo. Eu não fui ao concerto e só agora lhes ouvi o disco "These Are the Vistas". O trio ficou conhecido por fazer versões jazz de músicas rock (Nirvana e Blondie). Facto: para se ser notado é necessário fazer a diferença. Actualmente no jazz, mais que virtuosismo (virtuosos há muitos, seu palerma!), é essencial trabalhar ao nível da forma. E renovar o panorama dos standards é uma questão premente. Sem desvalorizar as canções clássicas - que, já se sabe, são imortais - mas introduzindo coisas novas, com qualidade (que para além do mais poderiam atrair novos públicos). Já antes Brad Meldhau gravou temas dos Radiohead [Paranoid Android, Exit Music (For a Film)] e Herbie Hancock dedicou um disco inteiro a esta renovação, chamando-o "The New Standard", onde se incluíam temas como "Come As You Are". Este trio poderá não ser considerado o máximo da inovação, mas tem alguma visão de futuro. E jazz também é isso. Tocam com força, muita força. Chamam-lhes mesmo "the loudest piano trio ever". Não serão propriamente a excelência máxima a nível técnico mas a alma rock 'n' roll que dão à música compensa tudo o que faltar. Porque a boa música (também) é lúdica - como Miles ("Big Fun") e como os Stooges ("Fun House"). Mas, acima de tudo, altamente jazzzzzzzzzzzz.
posted by Nuno Catarino @ 00:15
2004/02/11
Me(i)a Culpa
...mas voltemos à música - agora pop. Bem sei que há uns tempos falei mal deles, mas agora tenho de dar a mão à palmatória. Depois de "desencerar" os ouvidos, reconheço que os OutKast têm as suas virtudes. Não relativamente a "Spearboxxx", aqui a opinião mantém-se - hip-hop pouco imaginativo pouco me diz. Mas "The Love Below" é fantástico. Tem músicas excelentes, sim é um grande disco. Não é só o "Hey Ya!", há também, "Prototype", "Spread", "Take off your cool" (com Norah Jones)... A versão do "My Favourite Things" - tendo como base o piano de McCoy Tyner e o sax de Coltrane [penso que roubados ao Live at the Vanguard Again] - é uma reconstrução maravilhosa em drum'n'bass anacrónico que ganha vida própria. O disco é bom. Perdoem-me. Será que com este arrependimento - depois do pecado feito - ainda mantenho o direito de admissão ao reino dos céus?
[Post-Scriptum: O nome do disco dos Outkast é Speakerboxxx e não Spearboxxx como tenho escrito abusiva e erroneamente por aí. Mais uma vez perdoem-me.]
posted by Nuno Catarino @ 23:04
2004/02/10
O Primeiro e Fracassado Encontro Interbloguístico
Era hoje. Ia viver hoje o meu primeiro encontro interbloguístico - encontro com alguém apenas conhecido da blogosfera. De início era só para ser um cafezinho com a Lénia (que nunca são só cafezinhos) mas, como ela convidou também uma amiga blogosférica, o encontro tomava contornos diferentes. Estava curioso, porque a Leniazinha também me quis deixar na expectativa e não disse quem seria a companhia, apenas disse que seria feminina, blogger e minha leitora regular – a surpresa fazia parte do programa, mas tenho quase a certeza de quem seria (não vou dizer). No entanto, afazeres profissionais obrigaram ao cancelamento do encontro. Adiou-se o momento. Estou certo que foi só um esquema para aguçar a curiosidade...
O "spot" era o Saldanha Residence. Como já estava a caminho quando, à última hora, o encontro foi desmarcado, fui lá na mesma. Aproveitei para tomar o tal cafezinho, mas com uma amiga que lá trabalha. Confesso que também tinha uma secreta esperança de descobrir entre o povo a esplanar a tal alma blogosférica (se lá estivesse). Facto: ando um bocado paranóico com isto. É que no Residence (especialmente no Residence) quando olho alguém nas mesas pergunto-me: será que aquele tem um blog? qual será o blog daquela? e aqueles, será que têm um blog conjunto? Penso que esta doença tenha sido despertada por ter visto num certo sábado (aquele do duplo-cinema) alguém que me pareceu o José Mário Silva do Blog de Esquerda. No entanto, isto já se alastrou às viagens de metro (será que aquele senhor engravatado é o Jorge Mourinha?; será que aquela senhora da rasta é a Fata Morgana?; será que aquela loira fatal é a Xobineski?) E isto também acontecerá aos outros bloggers deste mundo? Sim, estou a ficar maluco, mas a verdade é que nunca fui muito são.
posted by Nuno Catarino @ 21:07
2004/02/09
Caminhadas Bracarenses & Dusty Springfield
À semelhança da recém-chegada Helena, também eu aproveitei o domingo para uma longa caminhada ao Bom Jesus. Estreei-me nestas passeatas. Para tal, tive de acordar cedíssimo (11 horas a um santo domingo dia de descanso é uma blasfémia!) mas o passeio compensou largamente o duro esforço madrugador. Depois do sofrimento de quase dois quilómetros (exagero) sempre a subir, a alegria magnífica de chegar ao topo da mítica escadaria bracarense dá uma vontade incontrolável de erguer os braços e pular, imitando o Rocky no topo da sua escadaria americana - felizmente não gritei "Adriaaaaaaaaan!", isso seria um gesto bonito e de revelador de elevada cultura cinematográfica, mas receei que a minha companheira de escalada e algo mais o pudesse entender como uma espécie de traição. Lá no cimo, apercebi-me de um estranho facto: havia mais gente em fato-de-treino que em vestes próprias de fiéis. Realmente... Lembro que no antigamente as idas em família ao Bom Jesus significavam uma incondicional devoção religiosa. Agora, mais que crentes, há gente em exercício físico, com vestes próprias de idas domingueiras aos centros comerciais da Bobadela. Perde-se o misticismo religioso, ganham-se corpos em forma e aproveita-se para ver as vistas (Braga vista por um canudo, sem canudo - de momento não funcionam os miradouros). O regresso sempre foi mais fácil - e, segundo a religiosidade do sítio, a descer todos os santos ajudam. A compensação do pós-exercício foi o almoço no chinês - aaaahhh, felicidade! (ainda não me deixei levar pela indiana, mas a cozinha chinesa há muito que me seduziu). São assim os domingos. Descoberta auditiva: música de domingo é Dusty Springfield. Esta cantora dos 60s e 70s, reabilitada por Tarantino na BSO de Pulp Fiction, acompanha na perfeição a luxúria dos domingos. Na preguiça do dolce rien faire [atente-se a classe da expressão trilingue!] o glamour easy-listening daquela soul branca derrete-se nos ouvidos como algodão doce na boca. O álbum: "See All Her Faces" (mais uma grande aquisição, 2 euros). Foi editado em 1972 - exacto, o ano a que se refere o título último do disco do Josh Rouse. E, sim, tem tudo a ver. Foi o prazer (des)culpado do dia.
posted by Nuno Catarino @ 20:50
Dos Livros Que Mais Gosto [Dez Deles]
E para acabar de vez com as listas, ficam os livros. Desta vez sem comentários.
- Thomas More "UTOPIA" [1516]
- Oscar Wilde "O RETRATO DE DORIAN GRAY" [1890]
- William Faulkner "A LUZ EM AGOSTO" [1932]
- Jólan Földes (aka Yolanda Földes) "A RUA DO GATO QUE PESCA" [1937]
- Pitigrilli "A DECADÊNCIA DO PARADOXO" [1938]
- John Steinbeck "VIAGENS COM O CHARLEY" [1962]
- Dinis Machado "O QUE DIZ MOLERO" [1977]
- Vergílio Ferreira "EM NOME DA TERRA" [1990]
- António Lobo Antunes "O MANUAL DOS INQUISIDORES" [1996]
- José Luís Peixoto "NENHUM OLHAR" [2000]
posted by Nuno Catarino @ 00:56
2004/02/08
Com Destinatário
Descobri recentemente que um colega de escritas (e, como eu, aprendiz de alquimias peixotianas) dedica-se a correspondências sentidas. Deliciem-se com as Cartas a Mónica.
posted by Nuno Catarino @ 23:59
2004/02/05
O Meu Cinema [Em Dez Filmes]
Já que estamos num momento de listas, aproveito e listo também os meus filmes preferidos. A maioria é da década de 1990 (incrivelmente quase metade é de 1998), mas também se juntam alguns mais antigos, clássicos que me abriram portas para outros mundos.
- Vincent Gallo "BUFFALO '66" [1998]
Gallo e Christina Ricci em grande, num ovni cinematográfico. Lindo.
- Wong Kar Wai "IN THE MOOD FOR LOVE" [2000]
O amor é isto.
- Stanley Kubrick "2001: A SPACE ODISSEY" [1968]
A exploração do universo ou a evolução do Homem. O mais grandioso filme sobre o "espaço".
- Terrence Mallick "THE THIN RED LINE" [1998]
O melhor filme de guerra que já se fez.
- Emir Kusturica "GATO PRETO GATO BRANCO" [1998]
Comédia imparável de maravilhosa fantasia.
- Alfred Hitchcock "PSYCHO" [1960]
Filme de terror? Muito mais... a minha porta de entrada na obra interminável do mestre Hitchcock.
- Takeshi Kitano "HANA-BI" / "FOGO DE ARTIFÍCIO" [1997]
O tempo suspenso numa tensão brutal. Magnífico.
- Todd Haynes "VELVET GOLDMINE" [1998]
Da primeira vez que o vi não gostei, agora adoro. Sex, drugs & glam-rock no mais belo videoclip da história do cinema.
Depois da lista dos dez álbuns da minha vida, faltava fazer a lista dos álbuns jazz mais importantes, como fez o vizinho Jazz no País do Improviso. Uma vez que já incluí três discos de jazz na outra lista (“A Love Supreme”, “Best of Chet Baker Sings” e “Getz/Gilberto”), não fazia sentido voltar a repeti-los aqui. Assim, os meus dez discos de jazz favoritos são:
- MILES DAVIS "Kind of Blue" [1959]: O melhor disco de jazz de sempre, dizem. Eles estão lá todos juntos: Miles, Coltrane, Bill Evans, Cannonball, Mr PC... “made in heaven”.
- DAVE BRUBECK "Time Out" [1959]: “Take Five” é dos temas jazz mais conhecidos de sempre. Podem contradizer, mas para mim aqui há swing (e não é pouco).
- ART ENSEMBLE OF CHICAGO "Les Stances A Sophie" [1970]: Entre o free-jazz e as canções na voz de Fontella Bass, um disco variado e livremente genial.
- ELLA FITZGERALD "The Best of The Song Books" [1993]: Normalmente entra-se no jazz pelas vozes. Haverá melhor maneira de começar do que por aqui?
- SONNY ROLLINS "Saxophone Colossus" [1956]: Para além dos standards “You Don't Know What Love Is” e “Die Moritat Von Mackie Messer” (aka “Mack the Knife”), inclui um dos seus melhores temas: “St. Thomas”.
- HERBIE HANCOCK "Head Hunters" [1973]: Entre o jazz e o funk, numa deliciosa fusão sem limites. “Watermelon Man” é demais.
- DUKE ELLINGTON, CHARLES MINGUS & MAX ROACH "Money Jungle" [1962]: Um dos mais célebres encontros de sempre. Três génios a criar em conjunto.
- DIZZY GILLESPIE "Afro" [1954]: A música afro-cubana como ponto de partida para balançar jazz e ritmos latinos. Pontos altos: "A Night In Tunisia" e "Caravan”.
- ORNETTE COLEMAN "Free Jazz" [1960]: O nome diz tudo. Depois de “The Shape of Jazz to Come”, a invenção pura. O improviso é tudo.
- JOHN COLTRANE "Blue Train" [1957]: A minha porta de entrada no jazz a sério. Um dos meus all-time-favourites.
posted by Nuno Catarino @ 00:03
2004/02/03
De Volta à Cinemateca
Quebrando um voto aqui feito, voltei ontem à Cinemateca. O motivo foi o filme "Os Verdes Anos" de Paulo Rocha, que abriu o ciclo "Movimentos Perpétuos - Cinema para Carlos Paredes". Como se tratou da inauguração do ciclo assisti também ao pomposo cerimonial. Eu só lá ia para ver o filme, mas presenciei também os discursos de Mr. Bénard da Costa e da esposa de Mestre Paredes, para além da interpretação da música "Verdes Anos" pela actriz do filme - Isabel Ruth (acompanhada por um quinteto de cordas) numa performance muito dietrichiana... Entre o público evidenciavam-se alguns notáveis, como o próprio realizador - que no final recebeu um caloroso aplauso. O filme é magnífico, claro: a música de Paredes está lá sempre, o final é surpreendente. Depois de "Belarmino", com "Os Verdes Anos" terminei o programa básico da cadeira de Novo Cinema Português.
PS: Ainda sobre cinema, arranjei hoje a magnífica autobiografia de Marlon Brando ["Canções Que a Minha Mãe Me Ensinou", 1994] por 5 euros. Vi-o assim barato e, lembrando-me dos tempos em que o meu amigo Nuno Nunes (talvez procurando inspiração) devorava aquelas páginas, levei-o. Além de curiosidades sobre os filmes, realizadores e amores, nas 500 páginas ainda há muitas fotos a ilustrar a história deste mito do cinema.
posted by Nuno Catarino @ 22:42
A Scarlett Não é Starlette, um Blog Não é um Belógue! [Direito de Resposta]
Antes de mais, muito obrigado pela atenção com que presenteia este sítio. Afinal parece que há alguém que realmente lê o que, pelo meio das imagens giras, eu vou escrevendo. De facto tem razão, a Scarlett merecia mais consideração da minha parte, mas confesso que não resisti, sucumbi à graça fácil do trocadilho. A Scarlett Johansson é maravilhosa, sim, e é daquelas maravilhas que foge maravilhosamente ao modelo Hollywood-produção-em-série. Dou-lhe toda a razão, nisto estamos entendidos. O que me descompôs foi a forma como escreveu a palavra blog - blog escreve-se blog e não há cá belógues para ninguém!
Na esperança de que tenha convencido os Galarzas a adoptar a atitude correcta relativamente a este maneirismo linguístico de primordial importância me despeço, aguardando na maior ânsia pela vossa conversão.
posted by Nuno Catarino @ 19:51
Sadcore (Not Hard, Sad!)
Já aqui falei deste disco, mas ele é tão bom que merece nova referência: "Frequently Asked Questions", disco de 2000 (editora Setanta) dos ingleses Tram [não confundir com os excelentes semi-pós-rockers-experimentais-mas-mais-alguma-coisa-fantásticos Pram]. Tram é sinónimo de sadcore aveludado [referência: Mazzy Star], ideal para ouvir em dias tristes como hoje. O disco mantém a fasquia elevada do início até ao fim e pelo meio ainda inclui uma versão de Tim Buckley ("Once I Was").
posted by Nuno Catarino @ 00:42
Eu Pecador Me Confesso
O amor* é realmente uma coisa muito bonita... principalmente quando é correspondido!
Beijos, linda!
* mas como dizia a Lénia, atenção às interpretações avantgarde... é amor-amizade!
posted by Nuno Catarino @ 00:24
2004/02/02
O Cinema Vai ao Jazz & Gramas a Menos
Sábado: duas idas ao cinema num só dia (acontecimento raro na minha vida, julgo ter sido a segunda vez que aconteceu). A culpada foi a minha amiga Sandra que, para compensar a ausência de convívio, no sábado resolveu (positivamente) abusar. O primeiro filme estava planeado e o segundo filme tratou-se de um programa alternativo ao encontro falhado com o Clã Caxias - uma vez que muitos membros anunciaram a sua ausência não fazia sentido participar (ainda para mais onde o motivo principal da reunião pouco me dizia); para a próxima combina-se um encontro inter-clã, para a reconcilição anunciada regada com copos no melhor ambiente. Mas dizia, fui ao cinema vezes dois. Os dois filmes foram vistos no Saldanha Residence, “21 Grams” na sessão das 17h00 e “Anything Else” às 00h15.
“21 Grams”, o novo filme do mexicano Alejandro Gonzalez Iñarratu é bom, mas desiludiu-me, já que esperava algo mais. A grande aposta na inovação formal, pela exibição descontínua da acção, é uma solução interessante, mas que se revela prejudicial ao espectador - uma vez que se mostram cenas futuras perde-se o interesse com o que entretanto vai acontecendo. Todo o filme é carregado pela sombra da tragédia e a imagem granulada acrescenta alguma sujidade, o que torna mais penoso assistir. Compensa que Sean Penn e Del Toro são gigantes. Para mim foi uma (pequena) desilusão, mas globalmente é um bom filme.
“Anything Else”, o novo filme de Woddy Allen, reconciliou-me com o cinema. É uma repetição dizer isto, mas os filmes do Woddy Allen são todos bons. E este é muito bom. O humor genial está todo lá. E este tem o acréscimo da Christina Ricci, deslumbrante naquela sensualidade de gente real - ao contrário das starlettes (Scarletts?) de pacotilha [loiras e de medidas perfeitas] que nos impingem. A banda sonora é jazz, Billie Holliday sempre presente. E a ida ao Village Vanguard foi um delírio pessoal - tenho de lá ir um dia destes. Até passei a gostar um bocadinho da Diana Krall.
Domingo: exposição no CCB, Gerard Castello-Lopes - muito bom, fotos excelentes (a da pedra, a da pedra!). E a coincidência feliz de encontros inesperados. À noite, a descoberta de "Belarmino", de Fernando Lopes - o herói português, com mais baixos que altos, o nosso campeão das noites do Bairro Alto, com desvio pelo Hot Club. Cada país tem os heróis que merece.
posted by Nuno Catarino @ 00:49
2004/02/01
Capuchino Vermelho e o Lobo Mau do Metro
Os últimos dias foram extremamente ricos em vivências culturais e não só. Começou na quinta-feira. Fui ao teatro com a Sara e pelo caminho fomos acompanhados por uma valente chuvada, muito pouco cultural mas extremamente molhada. O evento ocorreu no auditório do Instituto Franco-Português - da última vez que lá tinha ido foi para assistir à final do campeonato do mundo de rugby e a Austrália venceu a França, mas no final o champagne bebeu-se na mesma. Fui ver a peça “Quarto de Sangue”. Trata-se de uma aglomeração de três histórias infantis (Drácula, Capuchinho Vermelho e A Bela e o Monstro) reformuladas, em actualizações e variações. Uma surpresa (das boas). O teatro foi bom e, apesar da chuva, a noite tinha sido boa. O pior chegou depois. Na ida para casa um mais extremoso trabalhador do metropolitano resolveu embirrar comigo. Talvez porque não houvesse mais nada para fazer às 23h30, e chateado por não poder estar em casa a assistir à novela e a preencher o totobola, resolveu implicar comigo por ter ajudado com o passe social um amigo que estava com pressa não conseguia passar pelas portas automáticas. Ora, se o passe permite efectuar o número de viagens que quiser, posso entrar e sair do metro as vezes que queira; como o sistema estava avariado, com o bilhete pago as portas não se abriam, e como o Pedro estava com pressa, abri a porta com o meu passe para despachar a situação - julgo não ter cometido um crime altamente gravoso. A zelosa estupidez do funcionário, num sermão em tom arrogante-estúpido-mal-justificado, para além de me fazer crer que a violência pode ser solução para alguns problemas (infelizmente não levava nenhum taco de basebol), demorou-me o suficiente para perder o metro que acabava de passar. Por esta razão esperei mais 15 minutos pela partida do próximo comboio e tive ainda a sorte acumulada de a circulação ficar interrompida por 20 minutos - sempre deu para ler mais uns contos d’A Vida Alcatifada. Apesar do azar todo que me perseguiu nessa noite ainda consegui chegar a casa. Vivo.
posted by Nuno Catarino @ 23:59