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Au!
Aninhou-se para não mais voltar a essa regularidade de abjectas obrigações. Desligou-se da correia que o prendia a esse abrigo condicionado. Ao cheiro da liberdade farejou-o e não mais lhe saiu da ideia. Nessa tarde, quase igual a todas, desobrigou-se da ditadura a que o acorrentaram. Então correu, fugiu, sentiu no ar um sabor que nunca antes tinha sentido, ou se tivesse já não se lembrava. Esses dois dias passaram num ápice. A família encontrou-o e votou-o ao encarceramento quotidiano. A família Ferrro Rodrigues alegrou-se mas os dias seguintes seriam infernais para Gastão.
O José Cid é o maior! (Elogio da Pedofilia)
José Cid é o maior e mais importante músico popular português do Século XX. Uma afirmação destas poderá criar algumas reacções em alguns sectores mais conservadores. No entanto poderão ver que tudo não passa de uma imensa falta de memória. Poderão argumentar com o mau aspecto físico do homem, o uso do terrível capachinho, mas o nosso Elton John, tal como o original, tem de manter uma coerência, não vai agora, depois de tantos anos no imaginário nacional, abandoná-lo e assumir a careca. Uma breve resenha histórica, antes. O nosso JC começou bem cedo a carreira, nos Babies, onde começou a tocar músicas muito 1950’s. Depois, marcou uma época, com o Quarteto 1111. Entre outras passou também pela seminal banda Green Windows. E a solo lançou aquele que é considerado um dos 100 álbuns mais importantes de sempre do rock progressivo “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” (aquele dos cem euros). A par disto compôs alguns dos mais belos hinos que nos acompanharam durante os anos 80. Numa análise à música popular portuguesa é impossível não considerar temas como “Ontem, Hoje e Amanhã”, “Vinte Anos”, “Um Grande, Grande Amor”. E o que dizer das suas inesquecíveis interpretações de temas como “Cai Neve em Nova York” ou “Amar Como Jesus Amou”? Alguém se esquece de “Como o Macaco Gosta de Banana”, “Na Cabana Junto à Praia”, “A Minha Música”? E “No Dia em Que o Rei Fez Anos”?
No tempo em que suspeitos do caso “Casa Pia” eram detidos quase todos os dias esperei sempre com ansiedade que surgisse a notícia do envolvimento do nosso JC no caso. Afinal não, apesar do seu aspecto de grande pedófilo não o é... Senti-me enganado. Mas vejamos o que ele sempre cantou:
- “Ontem eras a menina mais alegre e mais bonita que eu já conheci, laçarote no cabelo e um fato à maruja feito de cetim”
- “...Eras tu uma criança que brincava ao baloiço e ao pião, tinhas tranças pretas e caçavas borboletas”
- “Quando eu te conheci eras criança, vivias no teu mundo de ilusão...”
Os tipos da PJ nunca desconfiaram? Não se justificavam as minhas expectativas? Goradas, no entanto. Assim, à fama já não a voltará a ver, pelo menos com a frequência que nos tempos idos acontecia. Para os, como eu, saudosos, divulgo: saiu há alguns meses no mercado uma colectânea (dupla) chamada “Nasci P’rá Música – Antologia 1977-1985” com o seu melhor. A confirmação do génio em lembranças aglomeradas. Absolutamente imperdível.
Os Meus Problemas com a Diana Krall
Eu não gosto da Diana Krall. Quem me conheça já deve saber disto. Eu e ela não nos damos bem. Foi assim uma coisa à primeira vista, mais ou menos. Começou quando a vi, na capa de um dos seus cds. Vocês não desconfiam de alguém que se diz cantora e para o confirmar levanta a linha da saia até ao limite do possível para exibir a bem-feita pernoca? É gira, a moça, loira e bem moldada. Com o seu olhar distante o que me faz lembrar é uma prostituta de luxo. O Manuel Pereira, ex-colega da residência universitária com quem partilhei folhas da publicação interna, fez uma vez, num artigo a propósito de Jean-Luc Godard, o elogio da prostituição de luxo. Quando escreveu tal artigo deveria estar a pensar em alguém muito semelhante à nossa Diana (ou então teria à mão alguma publicação cultural que não os Cahiers du Cinema, mais ilustrada e atrevida, pressuponho). Mas o facto da moçoila ser engraçadita por fora não teria nada de mal. Antes pelo contrario. Mas isso seria se o conteúdo do cd fosse bom. Ponho a tocar e... o que me mostrais?! Ela canta e toca o piano, interpretando sempre tudo com uma mesma entoação seca, única – sugiro-lhe que registe a patente, poderá denominar o estilo de “enjoado”, “estou farta disto e quero ir pra casa” ou “o outro não veio, tenho de ir eu outra vez?”. Por vezes solta-se da pauta, para dar o ar jazzy que faltava, mas mais valia que não o fizesse. A melhor parte do cd chega quando se carrega no stop. O estilo está muito em voga agora, o de meninas cantoras qualquer-coisa-jazz. Há Norah Jones, Jane Monheit, Lisa Ekdahl, Silje Nergaard, entre outras. E eu até gosto mais ou menos delas todas. A Norah nem é jazz mas é agradável e é novita e é filha do Ravi Shankar, o que é bom. A Jane canta bem e também é gira. A Silje tem um nome esquisito p’ra caraças, por isso ninguém lhe liga, mas é bonito de se ouvir. E a Lisa mete-as todas a um canto. Confesso que não tenho nada contra a categoria em que se enquadra a Diana, apenas e só contra ela. Porque é ela o símbolo que a classe social de-bolso-cheio-mas-cérebro-menos arranjou. Não sabem o que é jazz nem gostavam de saber mas exibem-na orgulhosamente aos seus pares sociais, ao lado da camisa Ralph Lauren: comprei o dvd da Diana Krall, é genial! A esses recomendo: vão à secção jazz de uma qualquer loja de discos, fechem os olhos e apontem em direcção aos cds. Abram os olhos. Ao cd que ficar em frente do vosso dedo indicador comprem-no – será bastante mais genial e jazz verdadeiro que qualquer Diana Krall. À Diana, um conselho: mudar de direcção profissional. Em vez de andar a deixar embeiçado meio-mundo e de me atormentar o espírito retire-se e que se dedique à nobre arte de ser pianista de bar. Imagino-a: num bar de hotel, sentada ao piano, troca olhares com o Manel, que segura nervosamente o copo, atento no movimento da perna que atrevida sai da saia, a luz vermelha do bar reflecte-se no copo, soam as últimas notas de “Love for Sale”. Quando acabar a música sobem as escadas.
Ao Leonard
Ouviste dizer que havia um acorde secreto, que David tocou e agradou ao Senhor, mas tu não queres saber de música, pois não? Tocaste essa aleluia depois de muitas aleluias outras, qual a maior. Cantaste a Joana d’Arc e as irmãs da misericórdia. Aleluias santas ou profanas. Despediste-te da Marianne e deixaste a Suzanne levar-te a um sítio que fica ao pé do rio, onde te alimentou a laranjas e chá que vieram da China. Levaste mulheres ao Chelsea Hotel nº2, a muitos outros lugares ou simplesmente abrigaste-as no teu famoso sobretudo azul. Canções de amor e ódio, nessa obra máxima que não ousaste mais igualar para que ficasse lá no cimo sem par. De princípio dizias que o amor nos chamava pelo nome, já para o fim, sabedor, disseste não haver cura para o amor. Para quem não se dispusesse acreditar ofereceste-te: sou o teu homem. Toda a gente sabe que és o maior poeta que alguma vez saiu da música. Mas tu não queres saber de música, pois não? Cantai outra canção, rapazes!
O Trabalho
...é uma chatice, pelo menos o meu. Voltei a ele hoje e já lhe sinto o desgosto. Ser assistente de back office é coisa que não alimenta muito a alma, diga-se. Não fossem os colegas (a Luísa, a Felisbela, as Anocas - a Men e a Bento, o Morcão, o Titi) e não se aguentava. A ver se me mudo depressa. Se alguém conhecer alguma coisa avise! Mas este retorno ao comum dia-a-dia também tem vantagens. Ainda não sei quais mas descobrirei... espero. Ah, os cafezinhos e copos com amigos, pois é. Ao menos isso...
Rumo à Lua (Oferta do Público)
Pianodrunk, obrigado pelo caramelo e também pelo convite mas não vou poder ir. Neste momento encontro-me na Universidade do Minho a escrever isto, onde decorre o I Encontro Nacional de Blogs, no qual eu não participo porque me pediram à entrada 30 euros! Trinta-euros-seis-contos? P'ra gastar dinheiro desta forma prefiro discos do José Cid. Aguardo futuro convite. Perdoem-me a brevidade mas vou apanhar sol/sombra (conforme a posição do guarda-sol) numa esplanada bracarense com o meu amor e o Público - parece-me que mais logo iremos com o Tintim à lua... Bom fim-de-semana!
Mais Férias
Na próxima semana estou de férias novamente. Vou passá-las entre Esposende e Braga, entre a minha família e o meu amor. Mas breves serão, já o sei. Volto breve. Até já.
Férias
Conto-vos das férias. Abstraí-me nesses dias nos Algarves, como toda a gente, mais preciso em Lagos. Em regime campista, pois claro, que os tempos são de crise e a ansiada retomada económica surge ainda muito desfocada. Facto: o campismo é horrível. Desvirginei-me nestas lides, infelizmente. Nunca jovem tinha sentido o apelo da tenda. Uma noite aqui ou ali, mas nunca a sério em regime profissional. Ia eu ingenuamente acreditando que giro seria e apesar de tudo saía mais barato. Contacto com a natureza e tal... Devo ter escolhido mal o parque em vez do ansiado ar puro só se respirava pó. Troque-se natureza por bicheza, que alguma havia. Mas imperdível mesmo foi o contacto humano, em especial confrontando, as três da manhã, o sonoro ressonar do vizinho da frente com os argumentos do grupo mulato para conquistar o grupo de loiras alemãs: - We’re having a barbecue! Do you want a sausage? (O Márcio, sempre ávido de novas deixas para engate ainda me há-de agradecer esta.) Grandes filas para o duche, de água fria, muitas vezes. E quão é mau dormir no chão, meu Deus! Conhecesse eu o gajo que inventou o campismo...
Mas deixemo-nos de tristezas, que estas nem o são, apenas felicidades levemente distorcidas para não cair na lamechice de embelezar em excesso. Ai as saudades desses dias de dolce farniente. A praia e o sol, que logo nos aquece a alma. As esplanadas e as sombras, que sol em excesso faz mal. E os restaurantes, o prazer desses jantares quase sempre ao ar livre em que escolhíamos quase sempre o prato mais barato da lista (ainda assim poucas vezes fomos obrigados a ir para o chicken piri-piri).
E o resto da noite, entretida nas actuações do trio musical semi-cigano de influências multi-culturais (pessoas de bom gosto não queirais saber...), os malabaristas e outros que tais. Nos copos, não muitos, mas que nos alegravam (diga-se, em tais ambiências muito não era necessário). E o término da noite no Stevie Ray’s - o únicio bar jazz do Algarve. Eu, que julgava fazer parte, com o Pico e os Gallaghers, do único grupo de cultores do Stevie Ray Vaughan em Portugal, descubro um bar que lhe rouba o nome, homenageando-o nobremente. Lá dentro o ambiente com mais classe e bom gosto do sítio. E a música, boa, ou não fosse um jazz bar. Imperdível.
Na praia ainda li “O Estrangeiro” de Camus, recentemente adquirido na Feira do Livro olissiponense e a pouca música que levei foi boa o bastante para encher as férias – o easy de Marc4, a ternura sem tempo de João Gilberto, alguma frescura do último dos Thievery Corp e o álbum com o nome mais apropriado à época: “How I long to feel that summer in my heart” dos Gorky’s Zygotic Mynci. Este último foi definitivamente o álbum que mais ouvi nestes dias. Realmente nunca o tinha ouvido decentemente mas complementou de forma luminosa o quadro belo.
Ah, e ainda, o Festival de Jazz de Lagos que eu nem sabia que existia mas ainda bem. Fomos a dois concertos: Doug Boyter's New Orleans Jazz Band e Zé Eduardo Unit. Dos segundos muito esperava mas desiludi-me. Dos primeiros nada sabia mas convenceram.
Os primeiros: Doug Boyter's New Orleans Jazz Band – que grande nome! Um grupo de senhores, das mais diversas nacionalidades europeias, que escolheram o Algarve para descansar na fase terminal da sua vida descobriram-se e formaram esta banda que celebra o jazz na sua vertente mais festivaleira, relembrando cortejos nas ruas de Nova Orleans que afinal nós não tínhamos vivido. Um trombone que se assumiu como instrumento de primeira linha competindo com o magnífico clarinete. O baterista, mentor do projecto, foi eficiente e pelo meio ainda fez um grande solo (bom, apesar de desenquadrado). O senhor Doug Boyter, que dá nome à banda, tocou o banjo mas este não se ouviu, literalmente. E sobrou o homem do piano, que tocava pela pauta! Admissível? Nem conto do momento absolutamente dispensável em que sozinho no palco relembrou tempos de adolescência mal vividos. Um grande concerto, apesar de algumas inconcistências, que terminou com o público de pé a dançar ao ritmo do obrigatório “When the Saints Go Marchin’ In”.
O concerto do Zé Eduardo Unit foi mau. Por alguns sectores da crítica jazz portuguesa o cd deles foi considerado o melhor nacional do ano passado. A idéia é boa, jazzar temas portugueses presentes em filmes. Nunca cheguei a ouvir o cd atentamente mas ia com algumas expectativas. A culpa nem foi da formação alterada – é de louvar a coragem de apresentar como baterista uma jovem de 17 anos – Sónia “Little B” Cabrita, que revelou estar bem orientada. O problema é dos arranjos das músicas. A solução fácil, repetir o início conhecido das músicas populares para depois partir à improvisação obrigatória, foi abusivamente aplicada. Não poderia haver mais imaginação nos arranjos? Salvou-se a versão do “Barco Negro” , música popularizada por Santa Amália. Também se Zé Eduardo se mantivesse caladinho e se limitasse a tocar sem tecer despropositadas críticas ao governo me deixasse com melhor impressão. Mas o público bateu muitas palmas. Pareceu-me é que eram todos amigos e familiares dos músicos...
Tudo isto se passou no Centro Cultural de Lagos, onde ainda lá apanhamos uma Feira do Disco. Razão para encontar o mítico “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” de José Cid. Sim, José Cid, esse mesmo. Quanto custa? Cem euros? Cem-euros-vinte-contos?, perguntou a Sofia. Sim, era verdade.
O resto das férias foi passado em Esposende. A semanita foi pequena mas chegou para voltar a sentir o carinho das maninhas lindas (quando não resolviam chatear o mano), o amor dos pais, os cozinhados da mãe (ai o salmão grelhado!), as idas à praia e os jogos de bola com o irmão. E nos muitos jogos na praia ainda conseguimos algumas vitórias! Este ano já não nos metemos com as miúdas em bikini, como dantes fazíamos, aos pares. Eu ficava com a da esquerda. Mas a praia pareceu-me mais bela desta vez. E a semana foi um descanso. Finalmente consegui ver o “Paris, Texas” – o fenómeno à volta do filme é absolutamente justificado. Obra prima absoluta - não sou que, desautorizado, o diria. Em Esposende tive tempo ainda para rever alguns amigos que a distância separa. E conhecer um bar novo e cheio de pinta chamado Mentes Raras – sim, o nome é bem foleiro, o bastante para compensar o facto de tão boa coisa se localizar naquelas bandas. Fomos lá ver um jazz trio da região - não lhes soube o nome, mas eram bastante competentes, desfilaram standards (temas de Ellington, Miles, Coltrane e Jobim e ainda o standard-mais-que-standard “Autumn Leaves”). Jazz em Esposende? Uma impensável combinação, mas foi verdade.
Depois comprei o bilhete para o expresso da Turilis e regressei à cidade. As férias terminaram, as memórias de dias felizes encheram-se para o resto do ano.
Regresso
Voltei. Regressei de férias bloguísticas, que as outras já há algum tempo terminaram. Tenho novidades, algumas. Agora já moro numa casa nova. Para já ainda não tenho net em casa por isso a actualização será menos frequente. Mas já sinto a alegria reencontrada da permanente preocupação em manter esta coisa sempre fresca. E volta o prazer de ler as novas da Lénia e dos outros. E de ver os comentários que delicadamente vão deixando. Voltei ao blog! Bibó blog! Blogz rulez!